Essa semana houve uma polêmica grande aqui . Uns rapazes estavam assediando adolescentes em um McDonald’s na cidade de Offenbach e ninguém fazia nada para ajudar e daí uma garota interviu. Na saída, um dos rapazes estava à sua espera, deu-lhe um soco e ela caiu, bateu a cabeça no chão e entrou em coma. Morreu alguns dias depois. Isso reacendeu a discussão sobre a violência contra mulher e essa jovem virou uma espécie de mártir anti-machismo.

Se tem uma pessoa que não faz o estilo gostosona essa sou eu. Sou franzina, não uso roupa curta nem decotes (porque não faz meu estilo mesmo). Tampouco tenho curvas voluptuosas. Só que isso não foi empecilho para uma vida inteira de merdas ouvidas na rua. Passei os últimos anos indo e voltando a pé do trabalho e por isso ouvindo todo tipo de coisa. Não são somente as palavras de baixo calão que irritam – eu dispenso os “bom dia” jocosos que não são dirigidos também às velhinhas ou aos homens que passam no mesmo local. Lembro que nesse trajeto havia uns pontos críticos : uns homens à toa que trabalham em uma sede do jornal “Hoje em dia” mas ficam batendo papo na calçada antes e nos intervalos do expediente. Uns manobristas desocupados em frente a um estacionamento. E o clichê: alguns pontos em construção ao longo de todo o caminho. Eu evitava esses pontos porque eu sinto um ódio tão fulminante quando ouço qualquer coisa que só pode fazer mal pra minha saúde e eu prefiro evitar a fadiga. O resultado era um trajeto em zigue-zague completamente ridículo para evitar esses pontos. Quando eu ia com meu pai sentia o pequeno gosto da liberdade de não ter que alterar o trajeto. Meu pai é idoso e pequeno mas o bigode o dá um quê de coronel. Quem iria arriscar? Eu ficava triste porque nessas horas eu queria muito ser homem, ou pelo menos ter esse direito que eles têm.
Eu tentei vários tipos de abordagem – ignorar, xingar, dar lição de moral, falar bom dia veementemente, entre outras bizarrices tipo fingir que achava que o homem era paciente e perguntar se o tratamento da gonorréia surtiu efeito. Mas nada teve um bom resultado. Só não enxerga quem não quer: o fato de eu ter que fazer esse caminho maluco ou mesmo desistir de usar saias em dias quentes era uma violência que eu sofria todos os dias – pelo menos essa era percepção que eu tinha. “Ah, ignora!!!”. Sério, não sou obrigada.
Essa questão foi portanto um alívio grande que senti ao mudar de país. Na Alemanha os homens não mexem como no Brasil. Eles geralmente não dão aquelas viradas de cabeça pra ver uma bunda passando nem nada disso. Isso não é bem visto para eles, não é motivo de se sentir foda perante os amigos, deve ser meio queima-filme até, então não é nada comum sofrer esse tipo de assédio. Quem quer faz topless à beira do rio sem ser incomodada, vai à sauna nua sem ninguém mexer, etc.
Pois estava eu saindo de casa ontem à noite, passo em frente a um homem encostado na esquina que vira e fala em bom alemão “Guten abeeeeend” (“Boa nooooite”) naquele tom horrendo que nós conhecemos bem. Putz, meu mundo caiu. Já imaginei uma cena – bebendo direto de uma garrafa de Absolut, tocando Total Eclipse of The Heart ao fundo, o abraçando lateralmente daquele jeito bebum, chorando e com o rímel escorrendo e falando pra ele “Por que????? Por que? Why godddd why?“.
Pois foi isso que me deu vontade de fazer ali. Mas só ignorei com aquela mesma cara de tacho de sempre e fui encontrar minha amiga no Mercado de Natal – só que especialmente decepcionada.
Beijos quase sem esperança
Meus ursinhos-zumbi

Bloopers: meus biscoitos de carimbo foram EPIC FAIL 










