13
outubro
2017

Habemus faxineira – como funciona, quanto custa

Postado por Ana em Alemanha, Ana de Casa

Faz pouco mais de 3 anos que me tornei “dona-de-casa“. Para mim, todo mundo que sai da casa dos pais é dona ou dono de casa, não tem jeito. De repente somos responsáveis (ou co-responsáveis) pela organização do lar, arrumação e muitas vezes limpeza. Eu cheguei a compartilhar várias dicas aqui (categoria Ana de Casa) de produtos favoritos, organização de rotina, etc. Na verdade eu sempre pensei na possibilidade de ter uma ajuda, mas algumas coisas me fizeram enrolar um bocado. O principal é que sou muito esquisita com a minha “própria casa”. Tenho ciúmes mesmo, sabe? Ficava imaginando alguém sozinha aqui, olhando/fuçando as minhas coisas. Quebrando minhas coisas, mudando tudo de lugar… Fora a questão da confiança e segurança, né? Tivemos um histórico horrível no Brasil. E se tem uma coisa que não suporto é estar em casa “relaxando” ou fazendo qualquer outra coisa enquanto alguém trabalha nela. Não queria que a pessoa ficasse sozinha nem acompanhada aqui, hahaha. Ou seja, era uma missão quase impossível.

A arrumação é uma coisa meio diária. Uma coisinha aqui, ali, caiu migalhas na mesa você limpa, sujou a pia você dá uma limpadinha. Mas uma vez por semana era a hora do faxinão. Eu tenho a sexta à tarde livre (para compensar as horas extras que sempre faço nos outros dias) e era justamente esse o horário do faxinão. O problema é que é também o horário para resolver outras coisas, por exemplo ir ao dentista, médicos. Fora a vontade de descansar após a semana intensa, né? E daí o que acontecia é que eu sempre queria entrar no final de semana já com a casa “pronta”. E daí mãos à obra eu ficava umas 3-4 horas limpando a casa. Se por acaso eu não conseguisse fazer isso sexta, daí acumulava pro sábado, ou pior, domingo, e isso me estressava de verdade. Ficava uma coisa incomodando no fundo e com a casa suja eu não poderia relaxar. Geralmente no final de semana eu dividia com meu marido, tipo ele limpava os banheiros e eu o resto e vice-versa. Mas a real é que já queria ficar livre na sexta. E por mais que seja bom alguém dividindo o trabalho, era um baita turn-off finalmente iniciar nosso final de semana, quando temos tempo para estar juntos, um no banheiro, outro no outro de luvas de borracha. Fora que eu andava meio brava. É óbvio que se passei minha sexta à tarde limpando, chega marido e abre um pão espalhando migalhas eu ficava fula da vida! hahahahaha Estava a um passo de me tornar dessas pessoas que mandam os outros comer em cima da pia para não sujar!

Mas daí chegou a hora que percebemos que precisávamos melhorar nossa qualidade de vida e ter mais tempo de qualidade, juntos ou não. Por causa da minha preocupação com segurança, resolvi fazer tudo por agência. Conhecíamos da época em que marido morou em Kiel a Agência Mary Poppins, que muitos colegas dele usavam. Aqui também tem essa agência e eu sinceramente não sei se vale a pena de verdade, mas foi assim que fizemos. Meu marido foi em uma reunião lá, disse o que precisávamos e eles encontraram alguém com nosso perfil. O problema é que demoraram umas 6-7 semanas, bem mais que o prometido. Daí eles acharam a moça e ela veio para cá e eu “a entrevistei”, aprovamos e ela começou na semana seguinte.

Diferença social em relação ao Brasil

A maioria das faxineiras aqui é estrangeira, mas a nossa por exemplo não é. No Brasil é comum a faxineira começar até mesmo como menor de idade e “seguir carreira” pro resto da vida nesta profissão, muitas vezes sem oportunidade de estudo. Aqui essa situação é incomum, a maioria são pessoas querendo ganhar dinheiro naquele momento, muitas vezes é uma atividade complementar. Nossa faxineira tem outra profissão e sei que com certeza não ficará muito tempo conosco. Ela fala 4 línguas e é muito pro-ativa e inteligente. Isso a gente percebe nas pequenas coisas. Ela veio para a entrevista muito bem vestida e de carro. O salário por aqui também oferece maior dignidade – é possível fazer faxina e criar seus filhos muito bem, por exemplo, com oportunidade de estudo, etc.

Quanto tempo ela precisa

Começamos testando 3 horas por semana, na sexta de manhã. Somos dois adultos em um apartamento pequeno de 70m2 e dois banheiros. Quando chego em casa, está tudo com aspecto limpo, mas a cada semana ela se concentra em detalhes diferentes. Com 3 horas não dá para esperar que a cada semana ela limpará dentro do microondas, por exemplo, mas ela o fará eventualmente. Por enquanto estou satisfeita com esse esquema. Ainda sobra um tempinho para ela levar os lixos para baixo (amem) e até mesmo os cascos de garrafa ela leva pros containers de vidro (a 50m daqui) e também entrega garrafas no supermercado e quando chegamos tem o ticket em cima da mesa (os famosos Pfand daqui).

Quanto custa

Não é impagável como muita gente pensa, mas também não é barato! Se os residentes da casa trabalham fora eles provavelmente conseguem pagar uma ajudinha semanal se essa for uma prioridade. No nosso caso específico, como fizemos com uma agência, funciona assim: nós pagamos a faxineira diretamente (ela deixa uma conta de 2 em 2 semanas) e aquele dinheiro é dela (mas ela paga impostos). Só que também pagamos uma taxa mensalmente à agência (uns 25 euros). Se quisermos um dia comprá-la fora da agência temos que pagar 400 euros. Aqui na Alemanha esse tipo de serviço é pago por hora. Não há ócio mas também a pessoa não trabalhará um minuto a mais de graça. O salário mínimo é 8,50 euros brutos a hora. Sabemos que nesse campo tem muita gente que trabalha e contrata sem pagar imposto ( “schwarz”). Nós não queríamos isso, queríamos pagar imposto e tudo certinho. Do contrário, além de ilegal, é meio que cuspir para a cima. Se acontecer qualquer coisa (roubo, acidente doméstico) você está completamente desamparado e pode esperar problemas. Conhecemos exemplos do nosso convívio de trabalhadores contratados “por fora” e que deu muita m*rda! A faxineira tem o preço dela que ela determina – o caso da nossa é 14 euros por hora. Lembrando que aqui no sul da Alemanha as coisas costumam custar mais do que no norte (por exemplo, em Berlim deve ser mais barato). Ou seja, juntando tudo gastamos uns 200 euros mensais (uns 750 reais) para ter alguém somente por 3 horas semanais. Claro que dá para ser menos, mas aceitamos esse preço e está bem assim. Não é uma guerra de quem paga menos. Ainda que doa no bolso, preferimos remunerar bem quem limpa nossas privadas e assim contribuir para o esquema de justiça social que impera neste país. 🙂 Muita gente só quer o bônus da segurança, etc, mas não quer fazer sua parte.

Como funciona

Não vimos outra forma senão confiá-la nossa chave. Ela chega sexta cedo, trabalha 3 horas e vai embora. Ela fez por conta própria uma Check-List com ítens da nossa casa e ela deixa para gente marcado o que ela fez no dia. Ela usa os produtos aqui em casa e temos um caderninho onde ela escreve o que está acabando, daí compro para a semana seguinte. Essa para mim é a parte mais difícil de acostumar, outra pessoa usando os seus produtos de limpeza e você meio perdendo a noção, hahaha

Repercussões na nossa vida

Parece besteira mas isso me tirou uma carga enorme. Chegar em casa na sexta e não ter nada para arrumar, nem lixo para tirar (e nem garrafa de vidro para levar no container) é impagável. Ando bem menos ansiosa e mais paciente … E eu gosto da sensação de que, ainda que a casa vire um caos durante a semana e eu pire e não queira mais limpar nada, é só esperar que ela estará limpa daí a pouco. Em um momento eu realmente tentei ser a mulher-maravilha, mas sinceramente, atualmente eu priorizo minha qualidade de vida. E eu sou uma pessoa que aproveita MUITO o tempo. Essas horas em que não estou limpando nem com a cabeça pensando em limpar eu faço outras atividades muito mais produtivas e gratificantes. Claro, como eu disse, na vida adulta o serviço de casa é eterno com ou sem ajuda. Mas eu realmente pretendo nunca mais ficar sem uma ajudinha sequer em casa, pelo menos não enquanto nós trabalharmos tanto.

No mais, eu acho interessante isso, o quanto uma coisa boba e que muitas pessoas nem dão valor (principalmente no Brasil) se tornou algo valioso para mim! Eu tenho apreciado enormemente, me deslumbrando por muito pouco. Tipo “meu DDEEEEEEEUSSSSSSS meu lixinho do escritório está vazio”. kkkkk E espero que essa sensação continue, que a #gratidão continue, tal como as criancinhas que têm enorme apreço pelo que é novo. E que isso nunca mais seja “taken for granted” por mim, seja o meu próprio trabalho doméstico ou o de outrem.


Beijos

09
outubro
2017

Em algum lugar do mundo eu tinha razão

Postado por Ana em Alemanha, Coisas da Ana

Olhem só a história. Lá estava eu com 3 ou 4 anos de idade (sim, eu me lembro de TUDO) na cama da minha mãe com minha irmã. Nós tínhamos o costume de assistir Moranguinho e A Noviça Rebelde, tipo mil vezes e repete – coisa de criança, né?! Daí que em um desses momentos, não sei como, afirmei que segunda-feira era o primeiro dia da semana. Para mim era tão óbvio isso – era o dia que a escola começava. Minha irmã, como sempre bem-sabida, já foi logo dizendo que eu estava errada e que domingo era o primeiro dia da semana. Eu lembro que achei aquilo tão absurdo! Repeti que ela estava errada e quando a mamãe voltasse ela ia concordar comigo. Pois eis que mamãe volta e diz “na verdade o primeiro dia da semana é domingo“.

Quem vê minha cara agora não imagina a capeta que eu era. Quando ouvi isso iniciei um dos meus memoráveis pitis, chorei, dei um dos meus pulos de 1 metro de altura, e dizia “VOCÊS VÃO TEERRRR QUE FALAAAAR QUE É SEGUNDA! É SEGUNDA! É SEGUNDA!”.

Gente, essa cena foi marcante num nível que eu nunca esqueci. Pois enbarquemos no tempo e uns 25 anos depois: já residente neste país das salsichas, por um acaso vejo que por aqui o primeiro dia da semana REALMENTE é segunda-feira. E mais: não somente na Alemanha mas em vários outros países do mundo (na Europa quase toda) e mais: segundo a definição do ISO 8601, segunda-feira é o primeiro dia da semana! Rá! A definição de domingo como primeiro dia é típica de calendários hebreus e cristãos tradicionais.

Já tem um anos que sei disso, mas lembro a lavada de alma que foi! rsrsrs

Curiosidade 2: a lua também muda

Isso eu percebi há relativo pouco tempo enquanto marido e eu observávamos a lua. Eu notei que algo não estava batendo: o que eu aprendi como lua crescente ele estava chamando de minguante. Daquela coisa bem básica que a gente aprende com a tia da escola, sabe? E quando olhamos no google descobrimos que o formato da lua crescente e decrescente muda se você está no hemisfério norte ou sul. E do equador ela também é diferente. Agora me parece óbvio, vocês podem estar me achando bocó, mas nunca tinha pensado nisso. Talvez por eu não ser muito ligada em astrologia, tipo, achei que era touro grande parte da vida, sendo que era áries, kkkkk!
No Brasil, a luz com forma de “c”, é crescente e com forma de “D” é minguante. Aqui tem uma regrinha também, a lua com formato de “a” cursivo (seria a curvinha do nosso C) é minguante (“abnehmend”) e com formato da parte de cima do Z cursivo (esquivalente ao nosso “D”) é crescente (“zunehmend”). Ou seja, tudo ao contrário. Já no equador a lua está meio deitada e aparece como uma barca ou arco.

regrinha no Brasil

regrinha na Alemanha

Curiosidade 3: preencher envelope é diferente

Eu sei que já deve ter gente em pânico com meu post e vou piorar mais um pouco! Mas lembram quando a gente aprende na escola a preencher envelopes bonitinho? Remetente aqui, destinatário acolá. Pois pasmem! Isso também é diferente aqui, olhem só meu esqueminha:

Está explicadinho na página dos Correios alemães, a Deutsche Post!

Engraçado que aprendemos verdades absolutas na infância e daí do nada, basta mudar um pouco o ponto-de-vista que tudo muda. Isso me deixou pensativa – primeiro, a gente nunca deve aceitar verdades sem procurar saber por conta própria. Segundo, a gente tem que ter cuidado em tomar “verdades” como eternas. E terceiro, vou plagiar o Steve Jobs: “stay hungry, stay foolish“. O mundo está lotado de conhecimentos invisíveis aos nossos olhos … podemos obtê-los se nos mantermos abertos a eles!

Beijos!

26
agosto
2017

Diferenças culturais: filas na Alemanha

Postado por Ana em Alemanha

Olha, nosso país tem seus problemas, mas num aspecto ele é altamente desenvolvido: filas! Claro que sem-educação e espertinhos existem vez ou outra, mas acho que o Brasil está neste aspecto anos-luz de outros países, inclusive da Alemanha. Há sociedades em que fazer fila é culturalmente muito mal aprendido: quem não se lembra que nas Olimpíadas de 2008 o governo da China estava ensinando os cidadãos a respeitarem fila? Hahahaha Pois pasmem: a Alemanha é um país ruinzinho de fila. Assim, não é nada que prejudique o dia-a-dia – o conceito básico obviamente existe, a maioria as respeita: mas são nas nuances que os alemães se comportam diferente de nós. Querem exemplos?

O terror das filas laterais

Existem algumas lojas em que tem tipo um caixa no balcão sem delimitação nenhuma clara de onde a fila começa, se é fila única, separada, etc. Daí começa a chegar gente de todos os lados, alemães espertinhos sem fim. Ou mesmo em locais onde as filas são mais bagunçadas por natureza: tipo Mc Donald’s, Burger King .. é muito comum alguém tentar passar na frente. A Alemanha é lotaaaaada de fura-filas!

Não há caixa preferencial

Se existe, é exceção! A regra é não ter caixa preferencial!. Isso eu só fui entender no Natal de 2014, quando fui aos Correios e a fila dava volta no quarteirão. Observei bem e 95% da fila tinha a cabeça branquinha e entendi então que fila preferencial não fazia sentido, né? É também comum ver pessoas com neném de colo, grávidas e idosos enfrentando a fila normalmente sem ninguém dar preferência. Eles não vêm isso como desaforo dos demais e os demais não percebem nada de anormal nisso. Confesso que isso me provoca uma coceira interna, maaaaaas atualmente eu faço igual eles. Uma vez em 2010, em Kiel, dei o lugar ao homem com um neném de colo e tipo ele não entendeu nada e eu tive que explicar o porquê e pude ver claramente que ele simplesmente achou aquilo mega esquisito. Atualmente só dou preferência se eu vir que a pessoa está em apuros mesmo e irá gostar do meu gesto.

Só um ítem

É muito comum alguém que só está com um ítem (ou dois) pedir para passar na sua frente no caixa. Eu achava a maior cara-de-pau, mas nunca neguei. Por outro lado é bem comum te oferecerem para passar na frente se você também só estiver com uma coisa. Eu não costumo aceitar a oferta não, mas meus amigos alemães sempre aceitam – lembre-se: se algo aqui é oferecido, você pode aceitar!

A correria do caixa recém-aberto

Essa para mim era a mais absurda de todas. Eu ficava com o queixo NO CHÃO! Se tem só um caixa aberto com uma fila enorme e o do lado abre, o que COSTUMA acontecer no Brasil? As pessoas, pelo menos as razoáveis, tentam se distribuir mais ou menos na ordem em que estavam, rumo ao caixa novo. Pois aqui o que sempre fez meu queixo cair no chão é que quando um caixa novo abre é cada um por si, quem chegar primeiro leva, hahahahhahaha! Sério, eu tive por muito tempo uma resistência enorme. Atualmente estou no meio do caminho: eu meio que dou uma leve “vantagem” para quem está na minha frente, mas se ele bobear já vou em disparada pro caixa novo.

Os separadores de compras

Sabem aqueles separadores em formato de toblerone que têm nos caixas para separar as compras dos clientes?

No Brasil é meio facultativo, pois nossa sociedade contextual super é capaz de entender que se há uma distância de 50 cm entre blocos de compras, elas pertencerão ao próximo cliente. Sendo a Alemanha uma sociedade contratual, é de se esperar que isso não funcione. Aqui as compras devem ser separadas com o tal toblerone e há inclusive uma discussão : por qual dos dois você é responsável? Eu acho que pelo depois das nossas compras e vocês? 🙂 Quase uma questão filosófica. Atualmente mudei de time e quando um freguês não coloca nenhum toblerone eu fico genuinamente o achando super sem educação, nesse quesito alemanizei mesmo! Mas lembro que recém-chegada eu gostava de testar essa “neurose” dos alemães e não colocava separador nenhum, para logo ver o alemão se coçando todo e tomando a iniciativa. Eu achava engraçado mesmo fazer esse teste. Sim, I was that bad! Outra coisa interessante é que se você colocar suas compras na esteira antes do da frente terminar, por mais que você ache que vai sobrar espaço, você tem chance de uns 12,45% de ser chamado a atenção. Meu marido por exemplo acha ruim e fala na lata pro outro: DEIXA EU TERMINAR, NÉ COMPADRE?! Eu, aliás, não canso de de surpreender como uma pessoa tão fofa e educada como ele fala tanta coisa na lata. A facilidade com quem ele diz NÃO! Típico de alemães isso… Um dia aprendo, hahaha!

Todas essas reflexões vieram nas minhas comprinhas de ontem – e mais ainda, estava reparando como mudei nesse aspecto. O que eu realmente não quero me tornar é uma fura-fila! Mas com o resto tenho até que tomar cuidado para não esquecer das raízes e não pagar de grosseirona nos meus retornos ao Brasil!

Beijos!

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