25
novembro
2017

10 dicas para superar a deprê dos meses escuros

Postado por Ana em Alemanha

Quando escrevi o post, era na verdade sobre novembro, o pior mês do ano na minha opinião! Frio, molhado, sem grandes atrativos aparentes. Acho que muita gente também acha, pois tem até o termo November blues. Eu particularmente já acho que a partir de dezembro melhora muito! 🙂 Mas enrolei tanto para publicar que novembro já está no fim, então adaptei um pouco e fica então algo “estendível” para os dias escuros e frios!

1) Manter a vitamina D em dia

Essa é uma época em que quem trabalha o dia todo sequer vê a luz do dia e isso é um prato cheio para a vitamina D abaixar. E sua carência tem relação com baixa de energia e sintomas depressivos. Vá ao médico para dosar e tome complementos (ex: por aqui, Vigantoletten) se necessário! Só não vai cair no conto-do-alemão e entrar naquelas câmaras horrorosas de luz UV, pelo amor de Deus!

2) Fazer exercícios físicos

É a época do “complexo de urso polar” e se deixar a gente só dorme e come. O exercício físico além de ajudar a não acumular quilinhos a mais, gera mais energia e endorfina e é essencial para passar bem por essa fase. Muita gente gripa nessa época e qualquer coisa que ajude a imunidade é bem vinda. Correr na rua é bem mais chato, mas não impossível, basta ter as roupas corretas (só quando tem gelo no chão, aí não rola mesmo, hehehe). Mas dá para fazer aulas em academia ou jogar coisas como Badminton indoors . Como grande fã de exercícios funcionais (comecei a pensar assim no início do ano) eu consigo fazer muita coisa legal em casa: yoga com vídeos (pilates também tem pra quem quiser), prancha, flexões, exercícios com rolinhos/discos/elásticos. Basta querer para se mexer! 😉

3) Criar um ambiente Hygge

Já ouviu falar em Hygge? É a palavra dinamarquesa para “aconchego”, mas na verdade é um conceito também. Criar um ambiente de aconchego, desacelerar, aproveitar as pequenas coisas, companhia da família. Basicamente relaxar e se sentir em casa!

Velas, meias felpudas, mantas quentinhas, chás gostosos, banhos de banheira com espuma, lareira e tudo mais que não podemos aproveitar bem no verão!!! Comprei um roupão mega felpudo no verão e agora o estou aproveitando horrores. 🙂

4) Aproveitar as abóboras e comidinhas típicas da época

Se toda época tem suas coisinhas típicas, não é agora que não vai ter. 🙂 Como sempre digo, nos ajuda muito se usarmos essas maniazinhas em nosso favor. Nada reina mais no outono do que as abóboras. As receitas estão em todos os lugares, mas se você não sabe por onde começar, divido uma gostosa com você do meu livrinho de receitas com abóbora:

Gnocchi de abóbora

Ingredientes para 4 porções: 500g de abóbora cozida (tipo: abóbora-spaghetti, aquela verde comprida). / 300g de batatas cozidas / Sal pimenta a gosto/ 200g farinha de trigo / 2 gemas / Noz moscada moída na hora / 1 dente de alho / 1 Pepperoni (aquele pimentãozinho apimentado)/ manteiga / pimenta

Preparo: com o mixer transformar a batata e abóbora num purê. Junta sal, a farinha, gema, pimenta e noz moscada e transforma tudo em uma massa lisa (atenção: use aquele espiral do mixer nessa hora). Da massa, forme os nhoques (cerca de 2 colheres de chá para cada um). Em água fervendo mas ainda sem borbulhar, adicionar as bolinhas e deixe-as lá cerca de 10 minutos em fogo baixo até os nhoques boiarem. Daí você o retira com escumadeira e deixa secar no papel toalha. Esmaga o alho, pica o pepperoni e refogue-os na manteira. Então adicione o nhoque. Finalize com pimenta.

Nesta época também já dá para aproveitar o Glühwein (uma espécie de quentão que adoro), biscoitinhos de natal (já dividi duas receitas que amo, aqui e aqui) e todas as gordices que a época oferece como ninguém.

5) Colocar filmes, seriados e literatura em dia

Não sei vocês, mas desde que moro na Batatolândia eu sinto mega consciência pesada em ficar com a bunda no sofá quando o dia lá fora está lindo. Mas com frio e chuva, no pro-ble-mo! Cada um sabe o que gosta de assistir. Eu particularmente olho a lista dos Top 250 melhores filmes segundo o IMDB e vou assistindo novos. Tem muitos clássicos que nunca vi, acreditam que só vi Casablanca em 2017? Para quem gosta de ler, a hora de colocar a leitura em dia é essa.

6) Ir às piscinas térmicas (Thermalbad)

São complexos com piscinas aquecidas e sauna muito amados por essas bandas. Eu não tenho a menor vontade de ir no verão … e para mim os melhores dias são aqueles BEM gelados, de preferência se nevou antes – você vai para a parte de fora da piscina quente e fica saindo aquela fumacinha, sabe? Aconchego puro. Para quem gosta de ir à sauna: sabia que ir à sauna reduz o risco cardiovascular? Isso mostrou um estudo da consagrada JAMA – o efeito é tão surpreendente qua desde que tomei conhecimento fico aqui tentando tomar coragem. Bom, enquanto não animo de ir à sauna peladona como os alemães, vou às thermas para frequentar as piscinas mesmo. Isso tem na Alemanha toda, só procurar e relaxar!

7) Fazer dia de beauté

Muito tempo em casa é perfeito para colocar máscaras faciais e de cabelo em dia e etc etc. É importante continuar usando protetor solar no rosto, mesmo o sol não dando as caras! Eu particularmente gosto muito de estar com as unhas dos pés feitas, mesmo ninguém vendo. Minha pedicure dura horrores (ao contrário da mão).
E gente, esta dica é meio estranha mas é sério: não fique sem tomar banho. E, se tiver se sentindo um lixo e seu mundo estiver ruindo, você nem pensa em mais nada: a primeira coisa que você faz é tomar banho, isso dá uma renovada nas energias. Parar com o banho é um dos sintomas clássicos da depressão, por isso, banhoooo sempre.

8) Cuidar mais do sono

É muito complicado levantar no breu e ir viver a vida como se nada estivesse acontecendo! Hehehe Eu fico muito mais sonolenta nesta época. Acho inacreditável quando o alarme toca e olho pra janela e parece que está no meio da madrugada!!! Acho bem mais difícil dormir 5-6 horas por noite no inverno do que no verão, então ir para a cama uma hora mais cedo já ajuda demais. Não é sempre que consigo, mas tenho tentado porque a diferença é gritante!

9) Participar dos feriados e tudo que oferecem

Use tudo o que puder da estação natalina: monte sua árvore já em novembro para alegrar sua casa e se gostar decore com outras coisas temáticas. Compre ou monte o calendário de advento, acenda as velas de advento, não esqueça do dia do “Nikolaus” (6 de dezembro), vá aos mercados de natal, prepare biscoitos, vá às inúmeras confraternizações de Natal.

E depois ainda tem as festividades de ano novo para organizar! E depois chega o carnaval com tudo (aqui o ponto alto é em Colônia, mas quase toda cidade tem suas festividades).

10) Cascar fora se possível

Até agora agimos pollyannicamente. Mas se você realmente não gosta da época e há a oportunidade: fuja! Kkkkk Marque sua viagem para o Brasil por agora ou faça viagenzinhas para terras próximas mais amenas, como Itália por exemplo.

RUN,FORREST,RUN!!!

Eu também procuro sempre lembrar das coisas boas que o frio me proporciona. Pernas zero inchadas, academia sem estar fazendo 50 graus (alemão não liga ar condicionado nesses ambientes aff) e é muitooooo mais gostoso de dormir E de dormir abraçadinha. Hihihi No verão eu fico igual um canguru boxeador SAI PRA LÁAAA TÁ QUENTEEEE…. Não há mais insetos nem elaaaa: a minha arqui-inimiga mosquinha de fruta.

Pronto!

Daí a gente esquece e quando assusta já é primavera de novo e nos lembramos do quando ela é sensacional.

Brincadeiras à parte: se você vir que seu desânimo está patológico e nada ajuda, procure ajuda profissional!

Beijos

28
outubro
2017

Alemanha: oftalmo versus optiker

Postado por Ana em Alemanha, Olhos

Correndo o risco de ser prolixa e escrever sobre algo que não interessa a ninguém, me deu muita vontade de traçar esse paralelo, pois acho do ponto de vista científico e sócio-cultural muito interessante! Se for para traduzir “Optiker”, a palavra seria “Optometrista”, mas eu pessoalmente prefiro não traduzir porque eu sinceramente não acho que é a mesma coisa que optometrista no Brasil.

Oftalmologistas x Optometristas no Brasil, a eterna guerra

Para quem não sabe, há anos existe uma verdadeira guerra no Brasil entre oftalmologistas e optometristas. Optometristas são profissionais que em teoria sabem medir os óculos e também os produzem e vendem. Só que no Brasil não são autorizados a prescrevê-los, apenas a vendê-los. A guerra política é eterna, mas atualmente consulta por optometrista é ilegal no Brasil. Em vários países do mundo a prescrição de óculos não é atividade exclusiva do oftalmologista, e a Alemanha é um deles. Eu provavelmente nunca mais exercerei a profissão com objetivo econômico no Brasil. Mas para o Brasil eu não sou a favor da optometria para a prescrição de óculos pelo simples motivo de que a sociedade e o sistema estão PROFUNDAMENTE despreparados para isso e as consequências para a saúde ocular da população seriam catastróficas. Você precisa mudar o Brasil de cima a baixo para que isso se torne uma boa idéia. O acesso pelo SUS é muito ruim e quem já viu de perto sabe o quanto que é difícil para populações carentes conseguirem uma prescrição de óculos ou consulta. Deste ponto de vista pareceria até justo que alguém fosse lá e preenchesse esta falha. Mas é justamente por isso que é perigoso, que a população que em geral não tem uma boa formação nem imaginará que saúde ocular é muito mais que óculos. Lembro do quanto que muitos achavam que o único motivo para enxergar mal eram óculos. Ficariam facilmente a vida inteira sem um exame ocular adequado. Precisamos de mais educação, de uma política social melhor, mais distribuição de renda, além de uma revisão cuidadosa da formação de optometristas – e daí sim poderíamos pensar em mudar. Infelizmente, ao meu ver, uma mudança profunda dessa não é possível antes de uns 50 anos.

Por que essa simbiose precisa funcionar aqui na Alemanha – ainda que imperfeita?

Aqui na Alemanha o sistema é intrinsicamente completamente diferente. A começar pela formação da população, que em sua maioria entende que a visão é mais que óculos. São ridiculamente bem-formados em relação a sinais e sintomas. Vêem um flash luminoso e em menos de três horas já estão no médico. Aqui tanto rico como pobre chegam ao sistema com a mesma velocidade. Se têm urgência, consultam no mesmo dia, ainda que a urgência seja um leve arranhar nos olhos. Se têm um descolamento de retina, não importa quanto dinheiro tenham, estarão operados em menos de 3 horas do diagnóstico. Só me lembro da tristeza dos colegas tendo que decidir no SUS qual paciente seria operado na SEMANA. Por outro lado, justamente por esse acesso quase ideal ao sistema e a população EXTREMAMENTE envelhecida, o modelo aqui é INCONDIZENTE com um oftalmologista como exclusivo prescritor de óculos. A quantidade é simplesmente matadora. É gente demais e a sensação que dá é que são médicos de menos. Simplesmente não dá para adotar o modelo do Brasil e precisamos do outro profissional, no caso, o Optiker.

Aqui oftalmologistas e Optikers trabalham em conjunto. A maioria dos Optikers não vende óculos se vê que a visão não está ficando boa, se não está 100%. E encaminham para gente o tempo todo. Vocês conseguem imaginar A MAIORIA do pessoal da óptica recusando uma venda no Brasil porque a visão não ficou perfeita? Eu tenho dificuldade de imaginar. Aqui ainda sugerem que devem ir ao oftalmo se vêem que o paciente não vai há um tempo. Como nada é perfeito, há exceções. Não me esqueço de um caso absurdo que vi uma vez. Era um homem relativamente jovem. Viu que a visão estava piorando de um olho. Daí ia para o Optiker e o homem ia prescrevendo óculos. Daí a visão em um olho zerou e ele pensou “ok, tenho o outro”. E continuou indo ao Optiker. Quando a visão do segundo olho abaixou também ele foi a mim e me deparei com um nervo óptico morto, um glaucoma tão ferrado como nunca tinha visto aqui em terra desenvolvida. Irreparável.

Se eu gosto?

Eu particularmente acho ótimo. Primeiro porque seria impossível mesmo fazer como é no Brasil. Além disso, no Brasil, uma grande dor de cabeça para os oftalmos são os pacientes que voltam over and over and over insatisfeitos com óculos. E o maior problema é que os óculos estão geralmente certos mas a adaptação muitas vezes é demorada e exige paciência do paciente, principalmente quando graus positivos (+1, +2, +3) estão em jogo. Esse é um problema que não tenho aqui. Ninguém vem até mim reclamar de óculos.

Eu trabalho com Optikers que são simplesmente sensacionais e cujo conhecimento vai muito além da prescrição de óculos, entrando por terrenos daninhos relacionados à cirurgia refrativa. Trabalho com uma especificamente de quem sou fã e com quem aprendo muito. Na Alemanha e formação dos oftalmologistas para a parte da refração costuma ser pelos motivos supracitados bem pobre. A refração nem costuma ser ensinada no equivalente da residência médica por aqui, e quem quer aprender tem que fazer uns cursos por fora. E mesmo quem é bem formado nessa área, tipo eu, (modéstia à parte) não possui um tempo comparável ao que temos no Brasil para a “Arte da Refração”. Pois é sim uma arte e exige tempo e psicologia.

Quem quer exames de óculos feito pelo o oftalmologista?

Ainda assim estou sempre medindo óculos. Claro que não é from stratch pois todos passaram no auto-refrator antes, eu só refino. Ao contrário do que vocês pensam, muitos pacientes querem receita do oftalmo. Eles não gostam de ir para um controle geral e nem terem a visão medida, não gostam mesmo! Quem tem seguro privado (a minoria) só recebe o valor dos óculos do seguro se a receita por feita pelo oftalmo. O restante (salvo exceções com graus extremos e crianças) deve pagar pelos próprios óculos. Aqui eles são mais caros que no Brasil, não é raro um mutifocal custar mil euros! Eu pessoalmente acho que uma refração ainda que vapt-vupt faz parte do exame, que seja para determinar se vale a pena um óculos novo, por exemplo. Os pacientes recebem a receita e o Optiker sempre refaz antes de vender e eu inclusive recomendo isso, pois daí o paciente pode reclamar o quanto quiser dos óculos e se necessário eles trocam. Se ele não conferir e houver reclamações pode ser bem mais complicado.

Quem deve ir ao oftalmologista?

Na minha opinião: crianças com uma boa constância principalmente nos primeiros anos de vida. Aqui os pediatras fazem um ótimo screening inclusive com auto-refração e encaminham também se têm qualquer suspeita de anormalidades. Todo adulto saudável uma vez por ano após os 40 anos. Em caso de doenças como diabetes, pressão alta, alta miopia, na frequência sugerida pelo médico. Adultos jovens e sem sintomas de 2 em 2 anos. E, claro, sempre em caso de sintomas.

Falhas do sistema simbiótico alemão

O sistema aqui não é perfeito e vejo dois problemas que advém deste sinergismo oftalmo-Optiker na Alemanha:

1) Adultos jovens estão frequentemente com óculos hipercorrigidos

Situação corriqueira do meu dia-a-dia. Pessoa na casa dos 40 anos que sempre jurou ser míope, chega lá com óculos -1,00 e na verdade nunca foi míope. Nosso olho possui uma lente dentro (cristalino) que possui uma capacidade chamada “acomodação”. É como se fosse uma pequena contração que nos permite enxergar de perto. Essa capacidade se esgota com a idade, principalmente a partir dos 40 anos. O interessante é que o olho jovem AMA acomodar. Então geralmente você vai dando lente negativa e a pessoa acha ótimo na hora. Isso deixa a prescrição não-cuidadosa com valores irreais – que muitas vezes podem provocar sintomas como dor de cabeça. A melhor forma de suprimir a acomodação é pingando colírio que dilata a pupila e “paralisa” a acomodação, que é algo que o Optiker não pode fazer. Então eles precisam ser MUITO cuidadosos com a técnica ao prescrever graus negativos, senão o resultado é esse mesmo.

2) E quem trata os sintomas?

Eu sou um exemplo vivo dessa situação. Minha visão para perto e para longe ainda é 160% mesmo sem óculos. É absurdamente boa. Se você fizer minha refração você vai encontrar ZERO e ZERO em ambos os olhos. Se eu for para o Optiker hoje ele vai me dizer que não preciso de óculos, pois vejo muito bem sem eles. Mas isso é errado, pois eu tenho uma mega astenopia (sensação de esforço extrema na leitura) que é justificada pela minha hipermetropia que ainda está latente. Significa que minha ainda jovem lente consegue compensá-la, mas a custo de muitos sintomas. Neste caso, preciso ler com lentes fracamente positivas. Como descobri isso? Através de exame com as tais gotas. E ,após isso, esperando um pouco – obviamente meu cérebro detestou meus óculos no início, mas após um tempo ficou ok. Isso é infelizmente uma lacuna no sistema – paciente com esses sintomas ficam bem desamparados e possivelmente anos sem o diagnóstico correto pois, como disse, o Optiker não irá ajudar e muitos oftalmologistas não têm tempo e além de pouca formação nessa área. Além de que é esta é a típica situação que gera óculos ruins no início. Também é a típica situação em que o paciente tem que VOLTAR mais uma vez para testar se tolera os graus. E que não vai gostar no início e que vai ficar insatisfeito no início. E quem vai se responsabilizar por isso? Quem vai ter esse tempo todo? Quem vai ficar falando para o paciente insistir em um óculos que o Optiker não mediu?

3) A prescrição exagerada de óculos com prismas

A prescrição de óculos com prismas é uma coisa que eu via MEGA raramente no Brasil. As indicações eram precisas. Aqui é uma epidemia, os Optiker prescrevem demais. Ao meu ver, 90% são prescrições inúteis. Muitos prismas-placebo! Eu não sei dizer se é uma diferença de Escola entre os países, mas fato é que óculos com prismas são caríssimos. Se te prescreverem um “do nada”, por exemplo, você não tem graus especiais nem visão dupla, recomendo ir ao oftalmo e pedir uma avaliação ortóptica para ver se é realmente necessário.

Como é com as crianças

As crianças e pré-adolescentes aqui recebem as receitas de óculos da Sehschule (literalmente, “escola de visão”). Até os 18 anos os seguros públicos cobrem os custos de óculos, parcial ou totalmente. As consultas na Sehschule são feitas com ortoptistas que são profissionais especializados na motilidade ocular e refração. Aí sim, quando necessário pingam as gotas e prescrevem os óculos corretos. Ao final discutem com os oftalmologistas e as crianças são examinadas. Os Optiker então sabem que nessas receitas eles não devem mexer, porque são a combinação de vários fatores, como estrabismos e hipermetropia latente.

É isso, há um tempo eu meio que queria colocar para a fora essas minhas percepções. Eu já falei uma vez, eu sou completamente apaixonada pelo fato de ter tido a oportunidade em trabalhar em dois “mundos” tão diferentes e me sinto privilegiada de conseguir traçar este paralelo. Espero que tenha sido interessante para alguém.


Beijinhos!

13
outubro
2017

Habemus faxineira – como funciona, quanto custa

Postado por Ana em Alemanha, Ana de Casa

Faz pouco mais de 3 anos que me tornei “dona-de-casa“. Para mim, todo mundo que sai da casa dos pais é dona ou dono de casa, não tem jeito. De repente somos responsáveis (ou co-responsáveis) pela organização do lar, arrumação e muitas vezes limpeza. Eu cheguei a compartilhar várias dicas aqui (categoria Ana de Casa) de produtos favoritos, organização de rotina, etc. Na verdade eu sempre pensei na possibilidade de ter uma ajuda, mas algumas coisas me fizeram enrolar um bocado. O principal é que sou muito esquisita com a minha “própria casa”. Tenho ciúmes mesmo, sabe? Ficava imaginando alguém sozinha aqui, olhando/fuçando as minhas coisas. Quebrando minhas coisas, mudando tudo de lugar… Fora a questão da confiança e segurança, né? Tivemos um histórico horrível no Brasil. E se tem uma coisa que não suporto é estar em casa “relaxando” ou fazendo qualquer outra coisa enquanto alguém trabalha nela. Não queria que a pessoa ficasse sozinha nem acompanhada aqui, hahaha. Ou seja, era uma missão quase impossível.

A arrumação é uma coisa meio diária. Uma coisinha aqui, ali, caiu migalhas na mesa você limpa, sujou a pia você dá uma limpadinha. Mas uma vez por semana era a hora do faxinão. Eu tenho a sexta à tarde livre (para compensar as horas extras que sempre faço nos outros dias) e era justamente esse o horário do faxinão. O problema é que é também o horário para resolver outras coisas, por exemplo ir ao dentista, médicos. Fora a vontade de descansar após a semana intensa, né? E daí o que acontecia é que eu sempre queria entrar no final de semana já com a casa “pronta”. E daí mãos à obra eu ficava umas 3-4 horas limpando a casa. Se por acaso eu não conseguisse fazer isso sexta, daí acumulava pro sábado, ou pior, domingo, e isso me estressava de verdade. Ficava uma coisa incomodando no fundo e com a casa suja eu não poderia relaxar. Geralmente no final de semana eu dividia com meu marido, tipo ele limpava os banheiros e eu o resto e vice-versa. Mas a real é que já queria ficar livre na sexta. E por mais que seja bom alguém dividindo o trabalho, era um baita turn-off finalmente iniciar nosso final de semana, quando temos tempo para estar juntos, um no banheiro, outro no outro de luvas de borracha. Fora que eu andava meio brava. É óbvio que se passei minha sexta à tarde limpando, chega marido e abre um pão espalhando migalhas eu ficava fula da vida! hahahahaha Estava a um passo de me tornar dessas pessoas que mandam os outros comer em cima da pia para não sujar!

Mas daí chegou a hora que percebemos que precisávamos melhorar nossa qualidade de vida e ter mais tempo de qualidade, juntos ou não. Por causa da minha preocupação com segurança, resolvi fazer tudo por agência. Conhecíamos da época em que marido morou em Kiel a Agência Mary Poppins, que muitos colegas dele usavam. Aqui também tem essa agência e eu sinceramente não sei se vale a pena de verdade, mas foi assim que fizemos. Meu marido foi em uma reunião lá, disse o que precisávamos e eles encontraram alguém com nosso perfil. O problema é que demoraram umas 6-7 semanas, bem mais que o prometido. Daí eles acharam a moça e ela veio para cá e eu “a entrevistei”, aprovamos e ela começou na semana seguinte.

Diferença social em relação ao Brasil

A maioria das faxineiras aqui é estrangeira, mas a nossa por exemplo não é. No Brasil é comum a faxineira começar até mesmo como menor de idade e “seguir carreira” pro resto da vida nesta profissão, muitas vezes sem oportunidade de estudo. Aqui essa situação é incomum, a maioria são pessoas querendo ganhar dinheiro naquele momento, muitas vezes é uma atividade complementar. Nossa faxineira tem outra profissão e sei que com certeza não ficará muito tempo conosco. Ela fala 4 línguas e é muito pro-ativa e inteligente. Isso a gente percebe nas pequenas coisas. Ela veio para a entrevista muito bem vestida e de carro. O salário por aqui também oferece maior dignidade – é possível fazer faxina e criar seus filhos muito bem, por exemplo, com oportunidade de estudo, etc.

Quanto tempo ela precisa

Começamos testando 3 horas por semana, na sexta de manhã. Somos dois adultos em um apartamento pequeno de 70m2 e dois banheiros. Quando chego em casa, está tudo com aspecto limpo, mas a cada semana ela se concentra em detalhes diferentes. Com 3 horas não dá para esperar que a cada semana ela limpará dentro do microondas, por exemplo, mas ela o fará eventualmente. Por enquanto estou satisfeita com esse esquema. Ainda sobra um tempinho para ela levar os lixos para baixo (amem) e até mesmo os cascos de garrafa ela leva pros containers de vidro (a 50m daqui) e também entrega garrafas no supermercado e quando chegamos tem o ticket em cima da mesa (os famosos Pfand daqui).

Quanto custa

Não é impagável como muita gente pensa, mas também não é barato! Se os residentes da casa trabalham fora eles provavelmente conseguem pagar uma ajudinha semanal se essa for uma prioridade. No nosso caso específico, como fizemos com uma agência, funciona assim: nós pagamos a faxineira diretamente (ela deixa uma conta de 2 em 2 semanas) e aquele dinheiro é dela (mas ela paga impostos). Só que também pagamos uma taxa mensalmente à agência (uns 25 euros). Se quisermos um dia comprá-la fora da agência temos que pagar 400 euros. Aqui na Alemanha esse tipo de serviço é pago por hora. Não há ócio mas também a pessoa não trabalhará um minuto a mais de graça. O salário mínimo é 8,50 euros brutos a hora. Sabemos que nesse campo tem muita gente que trabalha e contrata sem pagar imposto ( “schwarz”). Nós não queríamos isso, queríamos pagar imposto e tudo certinho. Do contrário, além de ilegal, é meio que cuspir para a cima. Se acontecer qualquer coisa (roubo, acidente doméstico) você está completamente desamparado e pode esperar problemas. Conhecemos exemplos do nosso convívio de trabalhadores contratados “por fora” e que deu muita m*rda! A faxineira tem o preço dela que ela determina – o caso da nossa é 14 euros por hora. Lembrando que aqui no sul da Alemanha as coisas costumam custar mais do que no norte (por exemplo, em Berlim deve ser mais barato). Ou seja, juntando tudo gastamos uns 200 euros mensais (uns 750 reais) para ter alguém somente por 3 horas semanais. Claro que dá para ser menos, mas aceitamos esse preço e está bem assim. Não é uma guerra de quem paga menos. Ainda que doa no bolso, preferimos remunerar bem quem limpa nossas privadas e assim contribuir para o esquema de justiça social que impera neste país. 🙂 Muita gente só quer o bônus da segurança, etc, mas não quer fazer sua parte.

Como funciona

Não vimos outra forma senão confiá-la nossa chave. Ela chega sexta cedo, trabalha 3 horas e vai embora. Ela fez por conta própria uma Check-List com ítens da nossa casa e ela deixa para gente marcado o que ela fez no dia. Ela usa os produtos aqui em casa e temos um caderninho onde ela escreve o que está acabando, daí compro para a semana seguinte. Essa para mim é a parte mais difícil de acostumar, outra pessoa usando os seus produtos de limpeza e você meio perdendo a noção, hahaha

Repercussões na nossa vida

Parece besteira mas isso me tirou uma carga enorme. Chegar em casa na sexta e não ter nada para arrumar, nem lixo para tirar (e nem garrafa de vidro para levar no container) é impagável. Ando bem menos ansiosa e mais paciente … E eu gosto da sensação de que, ainda que a casa vire um caos durante a semana e eu pire e não queira mais limpar nada, é só esperar que ela estará limpa daí a pouco. Em um momento eu realmente tentei ser a mulher-maravilha, mas sinceramente, atualmente eu priorizo minha qualidade de vida. E eu sou uma pessoa que aproveita MUITO o tempo. Essas horas em que não estou limpando nem com a cabeça pensando em limpar eu faço outras atividades muito mais produtivas e gratificantes. Claro, como eu disse, na vida adulta o serviço de casa é eterno com ou sem ajuda. Mas eu realmente pretendo nunca mais ficar sem uma ajudinha sequer em casa, pelo menos não enquanto nós trabalharmos tanto.

No mais, eu acho interessante isso, o quanto uma coisa boba e que muitas pessoas nem dão valor (principalmente no Brasil) se tornou algo valioso para mim! Eu tenho apreciado enormemente, me deslumbrando por muito pouco. Tipo “meu DDEEEEEEEUSSSSSSS meu lixinho do escritório está vazio”. kkkkk E espero que essa sensação continue, que a #gratidão continue, tal como as criancinhas que têm enorme apreço pelo que é novo. E que isso nunca mais seja “taken for granted” por mim, seja o meu próprio trabalho doméstico ou o de outrem.


Beijos

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