25
novembro
2017

10 dicas para superar a deprê dos meses escuros

Postado por Ana em Alemanha

Quando escrevi o post, era na verdade sobre novembro, o pior mês do ano na minha opinião! Frio, molhado, sem grandes atrativos aparentes. Acho que muita gente também acha, pois tem até o termo November blues. Eu particularmente já acho que a partir de dezembro melhora muito! 🙂 Mas enrolei tanto para publicar que novembro já está no fim, então adaptei um pouco e fica então algo “estendível” para os dias escuros e frios!

1) Manter a vitamina D em dia

Essa é uma época em que quem trabalha o dia todo sequer vê a luz do dia e isso é um prato cheio para a vitamina D abaixar. E sua carência tem relação com baixa de energia e sintomas depressivos. Vá ao médico para dosar e tome complementos (ex: por aqui, Vigantoletten) se necessário! Só não vai cair no conto-do-alemão e entrar naquelas câmaras horrorosas de luz UV, pelo amor de Deus!

2) Fazer exercícios físicos

É a época do “complexo de urso polar” e se deixar a gente só dorme e come. O exercício físico além de ajudar a não acumular quilinhos a mais, gera mais energia e endorfina e é essencial para passar bem por essa fase. Muita gente gripa nessa época e qualquer coisa que ajude a imunidade é bem vinda. Correr na rua é bem mais chato, mas não impossível, basta ter as roupas corretas (só quando tem gelo no chão, aí não rola mesmo, hehehe). Mas dá para fazer aulas em academia ou jogar coisas como Badminton indoors . Como grande fã de exercícios funcionais (comecei a pensar assim no início do ano) eu consigo fazer muita coisa legal em casa: yoga com vídeos (pilates também tem pra quem quiser), prancha, flexões, exercícios com rolinhos/discos/elásticos. Basta querer para se mexer! 😉

3) Criar um ambiente Hygge

Já ouviu falar em Hygge? É a palavra dinamarquesa para “aconchego”, mas na verdade é um conceito também. Criar um ambiente de aconchego, desacelerar, aproveitar as pequenas coisas, companhia da família. Basicamente relaxar e se sentir em casa!

Velas, meias felpudas, mantas quentinhas, chás gostosos, banhos de banheira com espuma, lareira e tudo mais que não podemos aproveitar bem no verão!!! Comprei um roupão mega felpudo no verão e agora o estou aproveitando horrores. 🙂

4) Aproveitar as abóboras e comidinhas típicas da época

Se toda época tem suas coisinhas típicas, não é agora que não vai ter. 🙂 Como sempre digo, nos ajuda muito se usarmos essas maniazinhas em nosso favor. Nada reina mais no outono do que as abóboras. As receitas estão em todos os lugares, mas se você não sabe por onde começar, divido uma gostosa com você do meu livrinho de receitas com abóbora:

Gnocchi de abóbora

Ingredientes para 4 porções: 500g de abóbora cozida (tipo: abóbora-spaghetti, aquela verde comprida). / 300g de batatas cozidas / Sal pimenta a gosto/ 200g farinha de trigo / 2 gemas / Noz moscada moída na hora / 1 dente de alho / 1 Pepperoni (aquele pimentãozinho apimentado)/ manteiga / pimenta

Preparo: com o mixer transformar a batata e abóbora num purê. Junta sal, a farinha, gema, pimenta e noz moscada e transforma tudo em uma massa lisa (atenção: use aquele espiral do mixer nessa hora). Da massa, forme os nhoques (cerca de 2 colheres de chá para cada um). Em água fervendo mas ainda sem borbulhar, adicionar as bolinhas e deixe-as lá cerca de 10 minutos em fogo baixo até os nhoques boiarem. Daí você o retira com escumadeira e deixa secar no papel toalha. Esmaga o alho, pica o pepperoni e refogue-os na manteira. Então adicione o nhoque. Finalize com pimenta.

Nesta época também já dá para aproveitar o Glühwein (uma espécie de quentão que adoro), biscoitinhos de natal (já dividi duas receitas que amo, aqui e aqui) e todas as gordices que a época oferece como ninguém.

5) Colocar filmes, seriados e literatura em dia

Não sei vocês, mas desde que moro na Batatolândia eu sinto mega consciência pesada em ficar com a bunda no sofá quando o dia lá fora está lindo. Mas com frio e chuva, no pro-ble-mo! Cada um sabe o que gosta de assistir. Eu particularmente olho a lista dos Top 250 melhores filmes segundo o IMDB e vou assistindo novos. Tem muitos clássicos que nunca vi, acreditam que só vi Casablanca em 2017? Para quem gosta de ler, a hora de colocar a leitura em dia é essa.

6) Ir às piscinas térmicas (Thermalbad)

São complexos com piscinas aquecidas e sauna muito amados por essas bandas. Eu não tenho a menor vontade de ir no verão … e para mim os melhores dias são aqueles BEM gelados, de preferência se nevou antes – você vai para a parte de fora da piscina quente e fica saindo aquela fumacinha, sabe? Aconchego puro. Para quem gosta de ir à sauna: sabia que ir à sauna reduz o risco cardiovascular? Isso mostrou um estudo da consagrada JAMA – o efeito é tão surpreendente qua desde que tomei conhecimento fico aqui tentando tomar coragem. Bom, enquanto não animo de ir à sauna peladona como os alemães, vou às thermas para frequentar as piscinas mesmo. Isso tem na Alemanha toda, só procurar e relaxar!

7) Fazer dia de beauté

Muito tempo em casa é perfeito para colocar máscaras faciais e de cabelo em dia e etc etc. É importante continuar usando protetor solar no rosto, mesmo o sol não dando as caras! Eu particularmente gosto muito de estar com as unhas dos pés feitas, mesmo ninguém vendo. Minha pedicure dura horrores (ao contrário da mão).
E gente, esta dica é meio estranha mas é sério: não fique sem tomar banho. E, se tiver se sentindo um lixo e seu mundo estiver ruindo, você nem pensa em mais nada: a primeira coisa que você faz é tomar banho, isso dá uma renovada nas energias. Parar com o banho é um dos sintomas clássicos da depressão, por isso, banhoooo sempre.

8) Cuidar mais do sono

É muito complicado levantar no breu e ir viver a vida como se nada estivesse acontecendo! Hehehe Eu fico muito mais sonolenta nesta época. Acho inacreditável quando o alarme toca e olho pra janela e parece que está no meio da madrugada!!! Acho bem mais difícil dormir 5-6 horas por noite no inverno do que no verão, então ir para a cama uma hora mais cedo já ajuda demais. Não é sempre que consigo, mas tenho tentado porque a diferença é gritante!

9) Participar dos feriados e tudo que oferecem

Use tudo o que puder da estação natalina: monte sua árvore já em novembro para alegrar sua casa e se gostar decore com outras coisas temáticas. Compre ou monte o calendário de advento, acenda as velas de advento, não esqueça do dia do “Nikolaus” (6 de dezembro), vá aos mercados de natal, prepare biscoitos, vá às inúmeras confraternizações de Natal.

E depois ainda tem as festividades de ano novo para organizar! E depois chega o carnaval com tudo (aqui o ponto alto é em Colônia, mas quase toda cidade tem suas festividades).

10) Cascar fora se possível

Até agora agimos pollyannicamente. Mas se você realmente não gosta da época e há a oportunidade: fuja! Kkkkk Marque sua viagem para o Brasil por agora ou faça viagenzinhas para terras próximas mais amenas, como Itália por exemplo.

RUN,FORREST,RUN!!!

Eu também procuro sempre lembrar das coisas boas que o frio me proporciona. Pernas zero inchadas, academia sem estar fazendo 50 graus (alemão não liga ar condicionado nesses ambientes aff) e é muitooooo mais gostoso de dormir E de dormir abraçadinha. Hihihi No verão eu fico igual um canguru boxeador SAI PRA LÁAAA TÁ QUENTEEEE…. Não há mais insetos nem elaaaa: a minha arqui-inimiga mosquinha de fruta.

Pronto!

Daí a gente esquece e quando assusta já é primavera de novo e nos lembramos do quando ela é sensacional.

Brincadeiras à parte: se você vir que seu desânimo está patológico e nada ajuda, procure ajuda profissional!

Beijos

19
novembro
2017

Mini-intensivo de Yoga em Cesena e o “bolonhesa” de Bologna

Postado por Ana em Viagens da Ana

Fiquei meses sonhando com essa pequena viagem … ando com uma sede enorme de Itália, sabe? Amo o país, amo os italianos, a comida, a língua. Minha vontade atual é de ficar vagando por lá todo meu tempo livre. 🙂 No início do ano, quando comecei a fazer Yoga, minha professora de italiano comentou de uma professora de Yoga da internet que era famosa por lá, a Scimmia Yoga. Disse que ela falava muito claramente e que seria legal eu unir as duas coisas. E tipo, opa! Esse “unir as duas coisas” é o que eu mais amo fazer – adoro matar vários coelhos numa cajadada só! Daí vi uns vídeos no You Tube, dei download de uns cursos no site e até participei de Yoga 30/30 que são 30 aulas de 30 minutos que você vai recebendo no seu email para fazer todo dia por um mês! Fiquei totalmente fã da Sara, apaixonada pelas aulas, pela voz da professora, tudo! Hahahahaha Ainda me considero super iniciante mas apesar de fazer Yoga na academia, acho que 90% do meu estilo vem das aulas online! E é até meio engraçado pensar que é a língua na qual fui alfabetizada em “Yoguês”- quando a professora da academia manda fazer a posição do herabsehender Hund eu penso “ah, tá, cane a faccia in giù“. kkkk Siachany!

as aulas foram no Centro Le Vie del Dharma

Ficava namorando no site as opções de aula ao vivo. Uma semana de retiro na Toscana, aiaiai, já pensou? Mas o que deu para planejar a curto prazo foi um intensivo de final de semana em Cesena. Para isso tirei uma segunda de folga, pois a cidade não é pertinho daqui, fica lá do outro lado da Itália. Eu nunca tinha ouvido falar nessa cidade! Vi que ficava na Emilia-Romagna, a uma hora de Bologna e uma hora de Rimini, em zona que não tem terremoto – daí decidi ir.

Cheguei em Bologna na sexta à noite e sábado beeeem cedinho peguei um trem para Cesena. Em contramão da minha personalidade reservada, na Itália me baixa um espírito do Grilo Falante e eu puxo papo com taxista e quem quer que passe pelo meu caminho. O fato de todo mundo até hoje ser uma simpatia ajuda. Fui andando até o meu B&B e observando aquela típica cidadezinha italiana, passando pelas ruelas, como amo essa sensação! Aliás, a contemplação é das minhas atividades favoritas. No meu caso específico, sinto que fazer muitas fotos e vídeos prejudica minha experiência, daí o fato de que tirei UMA única foto com a câmera. Estava um lindo final de semana de sol, uns 14 graus, perfeito! Cheguei ao B&B que tinha reservado e foi o lugar mais spooky que já vi em toda a minha vida. Dormi com um olho aberto e outro fechado. Gente, parecia a casa do Drácula, indescritível. Quem viu no stories do Instagram viu, quem não viu não vê mais. 🙂 A partir daí foram muitas horas intensivas de curso de Yoga, o curso durava 9 horas por dia. Tinha claro aulas físicas e seminários interativos. O legal é que eu era a única brasileira entre mais de 20 italianos. Me senti meio excêntrica, rs. Na verdade meu plano era ficar meio incógnita e mais quieta no meu canto, mas em algum momento tivemos que nos apresentar, escrever coisas, interagir. Eu entendo atualmente 95% do que é dito num contexto destes. Mas após “revelar” minha identidade, fiquei levemente incomodada com o pessoal me olhando para ver se eu tinha entendido as piadas, etc. Sabem? Tipo quando você vai no cinema e seu acompanhante fica olhando pra sua cara pra ver se você está rindo? Que saco ! kkkkkkk Mas simpáticos como sempre, puxavam bastante papo comigo. Almoçamos juntos comida vegana na marmita, e na pausa pro chá tudo o que eu queria era um café. Gente, tem que parar com isso de Yogini só tomar chá, não tá certo isso não! Os exercícios foram parecidos com os que ela dá online, mas ela fez de uma forma que era boa para iniciantes e para avançados, dava para você meio que personalizar de acordo com o que conseguia fazer. Mas é bem puxado, domingo acordei toda doída e me perguntei como conseguiria continuar! Ah, o estilo da Sara é Vinyasa Yoga, que atualmente consolidou-se como o meu favorito e é o único que faço.

Em Cesena comi num restaurante de serviço maravilhoso e comida fina e maravilhosa e preço ótimo (prato principal 10 euros!! Naonde que em Roma você consegue isso?). Se alguém algum dia pisar lá, se chama Da Ghigo, que fica bem na praça principal, a Piazza del Poppolo. Cesena é bem antiga e tem um ar bem misterioso. Não chega a ser uma cidade turística. É conhecida como a cidade dos três papas, pois Pio VI e Pio VII nasceram lá e Benedito III foi bispo de lá. Eu simplesmente amei passear pela praça, ruelas e ver aquela vidinha italiana correndo ali . Não deu para ver a Biblioteca Malatestiana, que talvez seja a principal atração, pois como disse, só tinha a noite livre.

Bom, comprei o livrinho da fessora no final e pedi até autógrafo! 😉

Fotinho do curso só tenho essa que ela mesma postou, e ainda saí de olho fechado.

Domingo fui para a estação e voltei de trem para Bologna, passeei à noite pelo centro e fui comer um Tagliatelle al ragù na Osteria dell’Orsa. Fui andando mesmo porque ficava a 1km do meu hotel. Muita gente diz que é o melhor bolognesa da cidade. Não sei se é o melhor mais achei excepcionalmente gostoso. Mas por outro lado já comi ao menos um na Alemanha tão bom quanto. O gosto da carne moída ganhou meu coração pois me lembrou a carne moída da minha vovó Gracy! Pedi um prato e uma taça vinho da casa e a conta ficou 8 euros!!! É tudo muito simples, dividi a mesa com 5 pessoas e tipo você paga no balcão, nem precisa dar gorjeta (mas eu sempre dou, os italianos ficam meio espantados). Tinha fila na porta (cheguei umas 21h), mas quando entrei pra dar meu nome e disse que era só eu, o homem falou que eu podia me sentar na hora mesmo. The perks of travelling alone🙂

DE LAMBER OS BEIÇO

Não se esqueça: eles não comem esse molho com spaghetti, só com tagliatelle e é quase uma ofensa pedir um “spaghetti com molho bolonhesa”. E bolonhesa se chama “al ragù”. Então fuja dos restaurantes pega-turista com plaquinha “pasta bolognesa” na porta. 🙂

Quando acordei segunda de manhã e abri a janela, vi caindo a chuva que eu já esperava pela previsão. Mas daí a chuva se tornou branca. Oi? Virou uma tempestade de neve. Em Bologna! Os italianos obviamente não estavam preparados. Cancelaram quase todos os vôos e manoooo aquele aeroporto titica não está preparado pra isso. Nem tinha lugar pra sentar no chão, mal dava pra comer algo, ir ao banheiro, etc. Esta segunda-feira foi um caos completo para mim, não só pelo que aconteceu no aeroporto mas também por outras coisas pessoais. Tanto que dormi na casa dos meus sogros nos arredores de Frankfurt, minha sogrinha cuidou bem de mim <3 e avisei que não daria para trabalhar terça. É um dia que quero esquecer. E deixar na minha cabeça somente as recordações deste final de semana especial.

A única coisa de que me arrependi então foi ter ido de avião. Era bem longe de trem, umas 8 horas, por isso resolvi voar. Achei uma má decisão não só pelo que aconteceu, mas porque quando viajo de trem aproveito bem mais o tempo, leio horrores e ainda amo. NO avião eu não me concentro, sofro, e ainda tem que ir pro aeroporto, chegar antes, pegar conexão, então no fim das contas dá no quase no mesmo.

Haverá outro mini-intensivo desses em abril para quem se interessar. Paguei uns 150 euros pelo curso (inscrição com antecedência) e pelo almoço paguei 10 euros por dia. Se valeu a pena? Moltissimo! 😉

Beijos!

28
outubro
2017

Alemanha: oftalmo versus optiker

Postado por Ana em Alemanha, Olhos

Correndo o risco de ser prolixa e escrever sobre algo que não interessa a ninguém, me deu muita vontade de traçar esse paralelo, pois acho do ponto de vista científico e sócio-cultural muito interessante! Se for para traduzir “Optiker”, a palavra seria “Optometrista”, mas eu pessoalmente prefiro não traduzir porque eu sinceramente não acho que é a mesma coisa que optometrista no Brasil.

Oftalmologistas x Optometristas no Brasil, a eterna guerra

Para quem não sabe, há anos existe uma verdadeira guerra no Brasil entre oftalmologistas e optometristas. Optometristas são profissionais que em teoria sabem medir os óculos e também os produzem e vendem. Só que no Brasil não são autorizados a prescrevê-los, apenas a vendê-los. A guerra política é eterna, mas atualmente consulta por optometrista é ilegal no Brasil. Em vários países do mundo a prescrição de óculos não é atividade exclusiva do oftalmologista, e a Alemanha é um deles. Eu provavelmente nunca mais exercerei a profissão com objetivo econômico no Brasil. Mas para o Brasil eu não sou a favor da optometria para a prescrição de óculos pelo simples motivo de que a sociedade e o sistema estão PROFUNDAMENTE despreparados para isso e as consequências para a saúde ocular da população seriam catastróficas. Você precisa mudar o Brasil de cima a baixo para que isso se torne uma boa idéia. O acesso pelo SUS é muito ruim e quem já viu de perto sabe o quanto que é difícil para populações carentes conseguirem uma prescrição de óculos ou consulta. Deste ponto de vista pareceria até justo que alguém fosse lá e preenchesse esta falha. Mas é justamente por isso que é perigoso, que a população que em geral não tem uma boa formação nem imaginará que saúde ocular é muito mais que óculos. Lembro do quanto que muitos achavam que o único motivo para enxergar mal eram óculos. Ficariam facilmente a vida inteira sem um exame ocular adequado. Precisamos de mais educação, de uma política social melhor, mais distribuição de renda, além de uma revisão cuidadosa da formação de optometristas – e daí sim poderíamos pensar em mudar. Infelizmente, ao meu ver, uma mudança profunda dessa não é possível antes de uns 50 anos.

Por que essa simbiose precisa funcionar aqui na Alemanha – ainda que imperfeita?

Aqui na Alemanha o sistema é intrinsicamente completamente diferente. A começar pela formação da população, que em sua maioria entende que a visão é mais que óculos. São ridiculamente bem-formados em relação a sinais e sintomas. Vêem um flash luminoso e em menos de três horas já estão no médico. Aqui tanto rico como pobre chegam ao sistema com a mesma velocidade. Se têm urgência, consultam no mesmo dia, ainda que a urgência seja um leve arranhar nos olhos. Se têm um descolamento de retina, não importa quanto dinheiro tenham, estarão operados em menos de 3 horas do diagnóstico. Só me lembro da tristeza dos colegas tendo que decidir no SUS qual paciente seria operado na SEMANA. Por outro lado, justamente por esse acesso quase ideal ao sistema e a população EXTREMAMENTE envelhecida, o modelo aqui é INCONDIZENTE com um oftalmologista como exclusivo prescritor de óculos. A quantidade é simplesmente matadora. É gente demais e a sensação que dá é que são médicos de menos. Simplesmente não dá para adotar o modelo do Brasil e precisamos do outro profissional, no caso, o Optiker.

Aqui oftalmologistas e Optikers trabalham em conjunto. A maioria dos Optikers não vende óculos se vê que a visão não está ficando boa, se não está 100%. E encaminham para gente o tempo todo. Vocês conseguem imaginar A MAIORIA do pessoal da óptica recusando uma venda no Brasil porque a visão não ficou perfeita? Eu tenho dificuldade de imaginar. Aqui ainda sugerem que devem ir ao oftalmo se vêem que o paciente não vai há um tempo. Como nada é perfeito, há exceções. Não me esqueço de um caso absurdo que vi uma vez. Era um homem relativamente jovem. Viu que a visão estava piorando de um olho. Daí ia para o Optiker e o homem ia prescrevendo óculos. Daí a visão em um olho zerou e ele pensou “ok, tenho o outro”. E continuou indo ao Optiker. Quando a visão do segundo olho abaixou também ele foi a mim e me deparei com um nervo óptico morto, um glaucoma tão ferrado como nunca tinha visto aqui em terra desenvolvida. Irreparável.

Se eu gosto?

Eu particularmente acho ótimo. Primeiro porque seria impossível mesmo fazer como é no Brasil. Além disso, no Brasil, uma grande dor de cabeça para os oftalmos são os pacientes que voltam over and over and over insatisfeitos com óculos. E o maior problema é que os óculos estão geralmente certos mas a adaptação muitas vezes é demorada e exige paciência do paciente, principalmente quando graus positivos (+1, +2, +3) estão em jogo. Esse é um problema que não tenho aqui. Ninguém vem até mim reclamar de óculos.

Eu trabalho com Optikers que são simplesmente sensacionais e cujo conhecimento vai muito além da prescrição de óculos, entrando por terrenos daninhos relacionados à cirurgia refrativa. Trabalho com uma especificamente de quem sou fã e com quem aprendo muito. Na Alemanha e formação dos oftalmologistas para a parte da refração costuma ser pelos motivos supracitados bem pobre. A refração nem costuma ser ensinada no equivalente da residência médica por aqui, e quem quer aprender tem que fazer uns cursos por fora. E mesmo quem é bem formado nessa área, tipo eu, (modéstia à parte) não possui um tempo comparável ao que temos no Brasil para a “Arte da Refração”. Pois é sim uma arte e exige tempo e psicologia.

Quem quer exames de óculos feito pelo o oftalmologista?

Ainda assim estou sempre medindo óculos. Claro que não é from stratch pois todos passaram no auto-refrator antes, eu só refino. Ao contrário do que vocês pensam, muitos pacientes querem receita do oftalmo. Eles não gostam de ir para um controle geral e nem terem a visão medida, não gostam mesmo! Quem tem seguro privado (a minoria) só recebe o valor dos óculos do seguro se a receita por feita pelo oftalmo. O restante (salvo exceções com graus extremos e crianças) deve pagar pelos próprios óculos. Aqui eles são mais caros que no Brasil, não é raro um mutifocal custar mil euros! Eu pessoalmente acho que uma refração ainda que vapt-vupt faz parte do exame, que seja para determinar se vale a pena um óculos novo, por exemplo. Os pacientes recebem a receita e o Optiker sempre refaz antes de vender e eu inclusive recomendo isso, pois daí o paciente pode reclamar o quanto quiser dos óculos e se necessário eles trocam. Se ele não conferir e houver reclamações pode ser bem mais complicado.

Quem deve ir ao oftalmologista?

Na minha opinião: crianças com uma boa constância principalmente nos primeiros anos de vida. Aqui os pediatras fazem um ótimo screening inclusive com auto-refração e encaminham também se têm qualquer suspeita de anormalidades. Todo adulto saudável uma vez por ano após os 40 anos. Em caso de doenças como diabetes, pressão alta, alta miopia, na frequência sugerida pelo médico. Adultos jovens e sem sintomas de 2 em 2 anos. E, claro, sempre em caso de sintomas.

Falhas do sistema simbiótico alemão

O sistema aqui não é perfeito e vejo dois problemas que advém deste sinergismo oftalmo-Optiker na Alemanha:

1) Adultos jovens estão frequentemente com óculos hipercorrigidos

Situação corriqueira do meu dia-a-dia. Pessoa na casa dos 40 anos que sempre jurou ser míope, chega lá com óculos -1,00 e na verdade nunca foi míope. Nosso olho possui uma lente dentro (cristalino) que possui uma capacidade chamada “acomodação”. É como se fosse uma pequena contração que nos permite enxergar de perto. Essa capacidade se esgota com a idade, principalmente a partir dos 40 anos. O interessante é que o olho jovem AMA acomodar. Então geralmente você vai dando lente negativa e a pessoa acha ótimo na hora. Isso deixa a prescrição não-cuidadosa com valores irreais – que muitas vezes podem provocar sintomas como dor de cabeça. A melhor forma de suprimir a acomodação é pingando colírio que dilata a pupila e “paralisa” a acomodação, que é algo que o Optiker não pode fazer. Então eles precisam ser MUITO cuidadosos com a técnica ao prescrever graus negativos, senão o resultado é esse mesmo.

2) E quem trata os sintomas?

Eu sou um exemplo vivo dessa situação. Minha visão para perto e para longe ainda é 160% mesmo sem óculos. É absurdamente boa. Se você fizer minha refração você vai encontrar ZERO e ZERO em ambos os olhos. Se eu for para o Optiker hoje ele vai me dizer que não preciso de óculos, pois vejo muito bem sem eles. Mas isso é errado, pois eu tenho uma mega astenopia (sensação de esforço extrema na leitura) que é justificada pela minha hipermetropia que ainda está latente. Significa que minha ainda jovem lente consegue compensá-la, mas a custo de muitos sintomas. Neste caso, preciso ler com lentes fracamente positivas. Como descobri isso? Através de exame com as tais gotas. E ,após isso, esperando um pouco – obviamente meu cérebro detestou meus óculos no início, mas após um tempo ficou ok. Isso é infelizmente uma lacuna no sistema – paciente com esses sintomas ficam bem desamparados e possivelmente anos sem o diagnóstico correto pois, como disse, o Optiker não irá ajudar e muitos oftalmologistas não têm tempo e além de pouca formação nessa área. Além de que é esta é a típica situação que gera óculos ruins no início. Também é a típica situação em que o paciente tem que VOLTAR mais uma vez para testar se tolera os graus. E que não vai gostar no início e que vai ficar insatisfeito no início. E quem vai se responsabilizar por isso? Quem vai ter esse tempo todo? Quem vai ficar falando para o paciente insistir em um óculos que o Optiker não mediu?

3) A prescrição exagerada de óculos com prismas

A prescrição de óculos com prismas é uma coisa que eu via MEGA raramente no Brasil. As indicações eram precisas. Aqui é uma epidemia, os Optiker prescrevem demais. Ao meu ver, 90% são prescrições inúteis. Muitos prismas-placebo! Eu não sei dizer se é uma diferença de Escola entre os países, mas fato é que óculos com prismas são caríssimos. Se te prescreverem um “do nada”, por exemplo, você não tem graus especiais nem visão dupla, recomendo ir ao oftalmo e pedir uma avaliação ortóptica para ver se é realmente necessário.

Como é com as crianças

As crianças e pré-adolescentes aqui recebem as receitas de óculos da Sehschule (literalmente, “escola de visão”). Até os 18 anos os seguros públicos cobrem os custos de óculos, parcial ou totalmente. As consultas na Sehschule são feitas com ortoptistas que são profissionais especializados na motilidade ocular e refração. Aí sim, quando necessário pingam as gotas e prescrevem os óculos corretos. Ao final discutem com os oftalmologistas e as crianças são examinadas. Os Optiker então sabem que nessas receitas eles não devem mexer, porque são a combinação de vários fatores, como estrabismos e hipermetropia latente.

É isso, há um tempo eu meio que queria colocar para a fora essas minhas percepções. Eu já falei uma vez, eu sou completamente apaixonada pelo fato de ter tido a oportunidade em trabalhar em dois “mundos” tão diferentes e me sinto privilegiada de conseguir traçar este paralelo. Espero que tenha sido interessante para alguém.


Beijinhos!

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