Como revalidei meu diploma de medicina na Alemanha

Tudo que sei está abaixo, eu provavelmente não sei informar nada além disso e não me encontro em condições para dar consultoria, seja ela gratuita ou paga. Eu peço humilde e encarecidamente para que não me mandem perguntas sobre esse assunto. No mais, espero que esse resumo que fiz com carinho possa ajudar a alguém que tenha objetivos reais de trabalhar aqui.

Oi gente! Resolvi fazer essa página separada como uma espécie de FAQ porque tenho recebido muitos e-mails de médicos querendo saber como eu fiz. Olha, pra começar, queria dizer que o processo muda o TEMPO todo, a tendência é que fique cada vez mais unificado, mas em cada Estado ainda é um pouco diferente. Sei falar como foi comigo, mas já sei de coisas que são diferentes hoje em dia. Recomendo a comunidade do Facebook “Médicos brasileiros na Alemanha” (só para médicos e estudantes) – lá tentam manter tudo atualizado, tem até o passo-a-passo. Sinceramente acho a maior moleza, há 2 anos meu sonho era achar algo assim. E, por favor, não tenham preguiça de ler os arquivos da página e só ir e perguntar tudo de novo.

1) Aprenda alemão primeiro. Observe um dia de trabalho seu e tudo o que fala, escuta, escreve, ouve. É esse nível que você precisará para trabalhar normalmente em qualquer outra língua. Teoricamente, para a revalidação ser possível, almeje um nível C1, mas C1 bom, que você consiga entender o que ouve e articular uma resposta normalmente. Por mais que C1 na minha opinião não seja suficiente para um dia-a-dia confortável, a questão é que, a partir de um bom C1, você sobreviverá e seguirá melhorando a língua no próprio ambiente de trabalho até se sentir confortável.

2) Entre em contato com o Landesprüfungsamt do Estado em que deseja revalidar. Eu não lembro 100%, mas eu acho que você tem que ter endereço no lugar onde vai revalidar. Eu não teria conseguido fazer a prova em Nordrhein-Westphalen morando aqui em Baden-Württemberg, por exemplo. Digite no Google: landesprüfungsamt + nome do estado que você encontra o endereço/telefone/email. Essa é a coisa mais sábia e rápida a se fazer. Dessa forma você pega a informação da fonte confiável.

Por exemplo, a lista que recebi em 2014 foi:

– Identitätsnachweis z.B. Pass (begl. Kopie)
– Diplom (Original und amtl. Übersetzung je in amtl. begl. Kopie)
– Zulassung als Ärztin in Brasilien (Original und amtl. Übersetzung je in amtl. begl. Kopie)
– letter of good standing aus Brasilien (Original und amtl. Übersetzung je in amtl. begl. Kopie)
– pol. Führungszeugnis aus Brasilien (Original und amtl. Übersetzung je in amtl. begl. Kopie)
– Nachweis ausreichender deutsche Sprachkenntnisse (vgl. Merkblatt, wir sind damit einverstanden, wenn Sie innerhalb von 6 Wochen nach Einriese am Sprachtest teilnehmen)

O tradutor que contratei é excelente, neste link aqui.

3) Em relação à língua, em 2014 aceitaram meu Testdaf C1. Para provar a linguagem técnica, eu podia escolher entre uma Entrevista na Câmara de Stuttgart ou a Prova de Comunicação com o paciente. Eu acabei fazendo a entrevista. Essa é a parte que mais tem mudado. Atualmente acho que não dá mais para fazer a entrevista e têm pedido um teste específico de língua chamado C1 Medizin. De novo: mandem o e-mail ou telefonem que vocês saberão.

4) Após a entrevisa eu mandei um e-mail para um responsável (que me deram na câmara) e recebi um e-mail convocando pra Gleichwertigkeitsprüfung cerca de 2 meses depois. Tinha uma lista com algumas opções de horários e escolhi um horário 3 meses depois para ter tempo para estudar. Foi exatamente esse o tempo que usei para estudar para a prova, mas não estava trabalhando e fui bem esforçada neste tempo. Claro que para quem está com a medicina geral fresca saindo da faculdade é bem mais fácil. As matérias são: Innere Medizin, Chirurgie, Strahlenschutz, Rechtsmedizin e Pharmakologie. Algumas localidades pedem também Psicologia. Estudei principalmente pelo livro “Die 50 Wichtigsten Fälle Innere Meidzin“, do Pottgießer. Saibam 100% desse livro que já é 80% da prova. Complementei com “Die 50 wichtigsten Fälle Chirurgie” da Güthoff, além de “Innere Medizin in Frage und Antowort”. Tem um site chamado Amboss que usei para complementar. Após 5 dias grátis tem um custo. Olhava na comunidade do Facebook Gleichwertigkeitsprüfung für ausländische Ärzte os relatos de prova das pessoas e o que eu não sabia eu procurava na Amboss e estudava. Lá também estudei Farmacologia e Strahlenschutz (fraco, mas na minha prova por sorte não caiu). Tem todos os livros na Amazon.de!

5) A grande prova final, a Gleichwertigkeitsprüfung. Quando fiz em 2014, consistiu em: fazer anamnese + exame físico em um paciente e descobrir o diagnóstico, isso dura meia-hora. O meu caso, por exemplo, era diverticulite. Daí você tem uma hora para escrever um relatório com resumo do caso, diagnóstico diferencial, epicrise, sugestão de tratamento. Depois você entra e apresenta o caso para a comissão (no meu caso eram 3 professores). Depois eles fazem perguntas práticas: mostre um exame de ombro na paciente, mostre como examina a tireóide, mostra como examina os nervos cranianos, etc. Depois você volta para a prova oral em si, fazem perguntas sobre os variados tema, casos clíncos, mostram exames (inclui Rx, ECG, etc). A minha demorou pouco mais de meia hora. Daí discutem e te chamam falando se passou ou não. Pelo que já ouvi falar, de 4 candidatos que tem no dia, no geral 3 passam, mas claro que varia. Estudando e falando alemão, não há o que temer. Se notarem que você foi pra prova sem entender alemão direito, com razão vão fazer questão de te reprovar. Por isso, vide ítem 1! Quando fiz, eram 3 chances pra passar nessa prova, senão tem que esperar 2 anos sem dar nenhum pedido de revalidação. Não sei como é hoje. Abaixo, um breve relato da minha prova que contei na época que fiz (novembro/2014) na comunidade “médicos brasileiros na Alemanha” no Facebook.

Foi assim: anamnese e exame fisico com uma paciente fake, tudo indicava ser uma diverticulite. Tempo maximo: 30 min. Depois te dao 1:15h para escrever o relatorio na Biblioteca. Depois 1h de pausa. Depois entrava candidato por candidato (éramos 4) numa sala com 3 professores e a “paciente”, tinhamos que apresentar o caso. Depois me pediram para mostrar na paciente o exame de ombro (eu chutei qualquer bizarrice, entrei em pânico nessa hora!!) e tireóide. Depois saí de novo ate todos fazerem isso. Depois cada um entrou pra prova oral, que demorou meia hora. Me perguntaram sobre anestesia e complicacoes de anestesia em oftalmo (porque sou oftalmo), que eu falasse de HAS e desse exemplo de 3 classes de medicamentos antihipertensivo. Perguntou de eu ja tinha ouvido sobre interação medicamentosa (dã) e o que explicava isso – falei do P450 citocromo. Depois perguntaram se Feocromocitoma pode induzir alteraçoes vasculares igual HAS primaria e porque. Depois os tipos de coma diabético. Por que cetoacidose é mais comum no tipo 1? Mecanismo da cetoacidose. Caso clinico com criança de 4 anos, Hg=7 e ferritina normal – o que pode ser? Tipos de talassemia. Explicar por alto a base patologica da Talassemia. Qual a diferença na Hemoglobina Fetal? Ultimo caso ; um senhor de 88 anos queixa dor nas costas e tem vHS alto, o que pode ser? Mieloma Multiplo – o que é e qual o mecanismo da insuficiencia renal. Quais doenças sao triadas nos recem nascidos na Alemanha. UFA! Depois eles pedem pra esperar la fora, discutem e chamam pra falar se foi aprovada ou não.

6) Custos: entre traduções juramentadas e documentos e taxas eu me perdi nos custos. Só lembro do valor da prova acima, que foi 500 euros. Chutaria uns 1000 euros no total. Em 2014!

7) Depois de passar na prova, você recebe uma carta para resolver algumas burocracias aqui mesmo, como exame médico por exemplo. Alguns dias depois de resolvido isso chega sua Approbation no correio. Ela não tem validade e é exatamente igual à dos médicos alemães. Não sei como funciona na Suíça nem em outros países da Europa. Não sei como é se você estudou em outro país da Europa.

8) Daí você vai procurar emprego. Monte um currículo nos moldes alemães, que inclui carta de apresentação e foto profissional e aguarde a resposta. Não tenho como ajudar nesse quesito, para ter uma idéia procure no Google que alguns sites ensinam mais ou mesmo. O ideal é ter um alemão para te ajudar. Vá para a entrevista bem apresentável: terno para homens e terninho ou saia social para as mulheres.

9) E a “Residência?“. Essa é a pergunta que eu mais recebo, e as pessoas têm uma certa resistência para aceitar a realidade seguir: a Alemanha não segue o esquema americano de Residência Médica. Inclusive recomendo algum estágio para compreender o que estou falando antes de decidir mudar de mala e cuia. Aqui após formar você vira Assistenzarzt e trabalha recebendo um salário digno, mas só após de cumprir 5 anos (todas, até pediatria são 5 anos) você pode se inscrever para a prova de título, que é oral. Então sua especialidade brasileira NÃO será reconhecida imediatamente aqui. Você terá que provar equivalência de tempo através de um Logbuch (geralmente assinado pelo seu chefe no Brasil) mas terá que trabalhar o tempo faltando E não há como escapar da prova de título (oral). Já adianto que o ensino aqui é diferente, não é aquela coisa de pegar na mão do Brasil. Se você não tem formação prévia na área conte com incontáveis apertos. Depois da prova de título você vira Facharzt.

10) Não tenho a menor idéia como funciona sem ter visto de permanência.

11) Não é possível entrar com um processo em Estados diferentes ao mesmo tempo. E se reprovar 3 vezes não vai funcionar tentar em outro, eles conferem.

12) Onde é mais fácil? É outra pergunta frequente. Já adianto que os alemães ficam de péssima vontade se perceberem que você está querendo fugir de prova, se está com preguiça, etc. Cuidado para não perguntar isso nos e-mails para as Câmaras. E não sei falar onde é mais fácil. Sei que Baden-Württemburg é mais chato porque não concedem Beruferlaubnis “de verdade” até você fazer todas as provas. Parece que em Nordrhein-Westphalen e na Baviera há algumas permissões a mais, tipo (após provar língua e documentos) exercer só com a Beruferlaubnis um tempo, mas mesmo assim após 2 anos tem que fazer a prova. Repito: não tenho certeza, pra ter certeza só mandando o e-mail para o Landesprüfungsamt . Que eu saiba, atualmente o nível virou C1 na Alemanha toda (era B2 em alguns lugares até há certo tempo).

13) Esse é o processo para médicos do Brasil, onde a faculdade dura 6 anos. Em países onde o curso durou só 5 anos, a coisa fica bem mais complicada.

14) No seu vídeo no You Tube você deu Graças a Deus de não ter feito a residência na Alemanha. Por que ? (adicionei ao FAQ porque recebo essa pergunta ao menos 1x por semana)

Estritamente pessoal, e é importante que você tome sua decisão com base no que você acha certo e não em opiniões randômicas da internet. No meu caso foi pessoal, porque fiz num serviço que sonhava, de alta qualidade. Gostei muito da educação que recebi, acho a educação no Brasil muito mais “pega na mão”. Durante a minha formação gastei toda minha energia no aprendizado da oftalmologia sem me preocupar também em aprender coisas da língua ou burocracias. Ao chegar aqui, após revalidar o diploma, tive uma facilidade enorme de conseguir trabalho (só mandei 1 currículo e só fiz essa 1 entrevista), me senti competitiva e com algo a oferecer. Ao começar a trabalhar aqui, um dos maiores apertos da vida, nem imagino o quão absurdamente difícil seria se, nesse tempo, eu estivesse aprendendo a usar lâmpada de fenda. Adoro ter a capacidade de traçar paralelos entre a oftalmologia dos dois países, apreciar as diferenças epidemiológicas, de conduta, tudo. A sensação de segurança de que, se algum dia eu pisar no Brasil, não vou ter que trabalhar como generalista (nada contra, mas gosto da minha especialidade), porque pra revalidar residência alemã lá, xiiiiii … Mas, como disse, tudo estritamente pessoal e de forma alguma estou dizendo que médicos formados lá são melhores que aqui e vice-versa! Também é o seu lado ruim, que é de chegar aqui e dar com a cara no chão – ver que coisas que no Brasil são verdades absolutas, aqui são absurdas e vice-versa. Terá que mudar suas práticas, conceitos e se adaptar a um universo completamente novo. A medicina aqui é muito diferente do que no Brasil. Não tem como eu explicar, a minha melhor dica é fazer uma Hospitation antes de vir.

15) A residência do Brasil vale automaticamente aqui?

Via de regra não, até porque não existe nenhuma “”””””residência””””” aqui que dure menos de 5 anos. Você poderá trabalhar normalmente na sua área e dependendo do lugar, fazendo tudo o que sempre fez. Mas até adquirir o título de “Facharzt” terá que trabalhar como “Assistenzartz” pelo tempo que falta pros 5 anos.

Para exemplificar: Aqui, por exemplo, clínica médica e pediatria são 5 anos. Se quiser ser cardiologista terá que fazer mais 3 anos de cardiologia. Ou seja, enquanto no Brasil precisam-se de 4 anos para ser cardiologista, aqui precisam-se de 8! O dobro! É óbvio que isso implica em diferenças. A quantidade de prática que eles têm é muito maior que a nossa em alguns sentidos – o tal cardiologista sabe fazer cateterismo, eco e todos os procedimentos de olhos fechados, só não faz mesmo as cirurgias. Então, se você chega como especialista em cardiologia aqui e não sabe fazer essas coisas, o povo fica até meio horrorizado. O clínico geral aqui sabe fazer uma quantidade absurda de procedimento, desde broncoscopia, muitos tipos de ultrassom, muitas coisas que no Brasil são específicas da oncologia. Isso porque, no geral, a medicina aqui é menos compartimentalizada. No Brasil, se você é oftalmologista e seu paciente tem um rasgão na retina, você manda pro especialista em retina fechar. Aqui, qualquer oftalmologista faz laser de retina. Olha, não é fácil não! Não é mesmo! E isso vale para todas as especialidades, o médico aqui é muito multifacetado (não quer dizer melhor…) , até os acessos venosos são os pobres que pegam. Você vai no consultório, o sangue é colhido ali mesmo. Por isso que não tem como reconhecer as especialidades diretamente.

A diferença é que você deve ter o cuidado em fazer o “resto” da sua formação em hospital/clínica/consultório credenciado para tal. O salário de Assistenzarzt é muito melhor que o de um Residente no Brasil – nos hospitais universitários seguem uma tabela ano a ano , em outros locais é negociado com o empregador mas é no mínimo parecido com o das universidades. Há como revalidar o tempo que você já fez, mas se prepare para mais traduções, correr atrás de logbuch e fazer uma prova oral no final. Para saber como é só procurar a câmara dos médicos da sua cidade, o responsável por marcar as provas de título te diz o que precisa.

16) Como é o trabalho aí? Como são os plantões? Como é a medicina? Quanto se ganha?

Imagina alguém te fazendo essa pergunta sobre o Brasil – o quanto as respostas variam de lugar para lugar, pessoa para pessoa, especialidade para especialidade. Por que aqui seria difrente? Portanto, caso queira ter uma idéia, recomendo ler os arquivos na comunidade do Facebook que citei anteriormente. 🙂

17) Mas por que você não ajuda mais? Podia ajudar mais.


Devido a situações desagradáveis no meu e-mail, não responderei nada sobre esse assunto mais. Para eventuais dúvidas, contacte a página do facebook ou serviços de consultoria (pagos), existem alguns na internet.

Abraços,

Ana