23
fevereiro
2016

Dez coisas a saber sobre cirurgia refrativa a laser (“da miopia”)

Postado por Ana em Olhos

Há muito tempo que queria escrever esse post, mas só agora “saiu”. Foi até bom esperar porque nos últimos meses passei a me ocupar relativamente bastante na área e aprendi muito mais também. Na verdade, cirurgia refrativa é um conceito que engloba várias técnicas que têm um objetivo em comum: a independência – parcial ou total – de óculos ou lente de contato. Aqui falarei da que é mais “famosa” atualmente: aquela a laser, sabem? Inclusive existem algumas formas diversas de cirurgia a laser, mas vou me referir abaixo mais especificamente ao LASIK, que é a mais comum atualmente. Muita gente conhece como “cirurgia de miopia“, mas o laser pode corrigir outros erros refracionais também, como hipermetropia e astigmatismo. Mas, como é mais comum, falarei mais da correção de miopia mesmo!

1) O que pode ser corrigido com a cirurgia refrativa a laser?

O laser pode corrigir miopia, astigmatismo (inclusive os dois ao mesmo tempo) e também hipermetropia. O quanto pode ser corrigido é bem individual e depende das características do olho da pessoa, por exemplo, da espessura da córnea. No geral, a correção máxima recomendada é de 8 graus para miopia, de 3 para hipermetropia e 5 pro astigmatismo.

2) Como é realizado o procedimento? Dói?

cornea

O alvo da cirurgia a laser é a córnea. A córnea é a “tampinha do relógio do olho”, a parte transparente que fica na frente da íris. A técnica mais moderna de LASIK se chama Femto-Lasik, pois o corte inicial é feito com laser de Femtosegundo. O procedimento não dói, porque a córnea é altamente anestesiável com colírio. E tudo é muito rápido. Primeiro, pinga-se um colírio anestésico no olho. Depois chega um anel de sucção que dá uma pressionada na córnea para ela ser cortada com precisão. Nesse curto momento, a pressão do olho sobe bastante e no geral não se vê nada. Daí o laser tipo “Femtolaser” corta uma tampinha na córnea (“flap“), que já foi pré-calculada.

lasik2

Ainda é feito bastante também o LASIK com microcerátomo em vez do Femtolaser, onde o corte não é feito com o laser, mas sim com uma espécie de micro-bisturi. Depois, o cirurgião levanta a tampinha e daí vem outro tipo de laser, o “Excimer laser“. Este passa fazendo a “ablação corneana” – removendo uma quantidade também pré-calculada de tecido da córnea. Por exemplo, para corrigir cada grau de miopia se remove uma quantidade “x” de tecido. Daí fecha-se a tampinha e é tudo auto-selante, não precisa de pontos. O cirurgião te falará para onde deverá olhar durante o procedimento – você não precisa ter medo de seus movimentos oculares, pois os aparelhos modernos estão preparados para segui-los, se pequenos, ou para parar o procedimento em caso de grandes movimentos.

3) Quem pode fazer? Pra quem é indicado?

Cada serviço pode alterar um pouco as indicações, mas no geral, o paciente deve ter mais de 18 anos. Além disso, o grau de óculos deve estar estável há pelo menos um ano, sem alterar-se em mais que meio grau. Os olhos devem ser saudáveis, você não pode ter doenças de córnea nem doenças que cursam com olho seco grave. Você não pode estar grávida nem amamentando e sua saúde geral deve ser boa. Sua córnea deve ser suficientemente grossa para que, após retirado o necessário, ainda fique uma quantia X de segurança. A indicação de submeter-se ou não à cirurgia é individual, mas o básico é que ela serve para melhorar a qualidade de vida. Então, na minha opinião, ela está indicada para quem se sente mutilado pela necessidade de óculos ou lente de contato para longe. Como tudo na vida, é questão de custo x benefício, que deverão ser pesados!

pirato

4) Há riscos ?

Apesar de ser muito seguro, o LASIK tem seus riscos, como em todo procedimento médico. Os riscos sérios, contudo, são muitíssimo raros, especialmente com os procedimentos com FemtoLaser, que praticamente aboliram as complicações de corte. Não vou listar alguns bem específicos, mas apenas alguns mais importantes: infecção, reações de hipersensibilidade, erros de cálculo ou “piorar um ceratocone adormecido”. Ceratocone é uma doença da córnea que vocês possivelmente conhecem – e é contra-indicação absoluta para o procedimento. Mas o problema é que nem sempre é fácil de reconhecê-lo. Quando o ceratocone está na forma “frustra”, ou seja, “adormecida”, pode ser muito difícil diagnosticá-lo, mesmo com exames modernos. O risco com a tecnologia atual é ínfimo, mas existe. Esse é dos maiores desafios desse tipo de procedimento, aliás. Porque LASIK é veneno pra ceratocone – o que era frustro, após um procedimento desse, aparece e degringola de vez. Já em relação a LASIK x Descolamento de retina, há muita discórdia. O LASIK não foi confirmado como fator de risco independente, mas a miopia, principalmente a alta, sim. E são geralmente esses os candidados ao LASIK, o que leva a muita confusão, pois são pessoas que, obviamente terão uma frequência maior de descolamento que as demais. O que se sabe é que a retina deverá ser bem examinada no pré-operatório e eventuais defeitos (como buracos, rasgões) deverão ser tratados antes (laser de retina). Não se sabe ao certo mas pode ser que, devido ao anel de sucção, a força sobre o olho possa atuar sobre lugares já sensíveis da retina (no caso, não previamente tratados) e favorecer o aparecimento de uma rotura, por exemplo.

A parte mais desafiadora de um bom resultado com o LASIK nem é a cirurgia em si, mas sim o pré-operatório. Muitos exames são feitos antes para tentar garantir a satisfação no final, mas sempre existe a chance da correção final não ser a esperada. Em LASIK, touch-ups, ou retoques, são possíveis, mas como tudo em medicina, melhor conseguir o efeito esperado na primeira tentativa. Re-operações sempre têm mais riscos!

5) Há efeitos colaterais?

Em relação aos efeitos colaterais mais comuns: sensação de olho seco, bem puxada no primeiro dia (tem que pingar colírio frequentemente) e desconfortável nas primeiras semanas. Daí será bem de cada um, se os olhos permanecerão mais secos após o procedimento ou se voltarão ao “normal” e em quanto tempo! Mais uma vez a importância do pré-operatório para reconhecer olhos já secos que provavelmente sofrerão mais com o problema após o LASIK. A profissão também é importante, quem trabalha o dia todo no computador sofrerá provavelmente mais com isso, principalmente no início. Além disso, é muito comum que uns vasinhos superficiais se arrebentem no procedimento e os olhos fiquem BEM vermelhos por dias. Nada de fazer pra preparar pro seu casamento que será em uma semana haha! Além disso, pode haver uma piora na visão dos “halos” noturnos (vai depender do tamanho da pupila). Isso acontece porque, à noite, a pupila fica às vezes maior que a superfície que foi trabalhada no LASIK.

6) Se eu me submeter a cirurgia nunca mais vou precisar de óculos?

Acho que essa é a questão mais importante e subestimada. Talvez eu seja meio conservadora, mas não me sinto bem vendo paciente de 37 anos optando pela cirurgia refrativa sem que lhe tenha sido explicada a situação a seguir muito bem: ele está ali porque quer independência de óculos, mas daí a uns 3 anos precisará de óculos de leitura. Um míope com 3 graus de miopia poderá ficar a vida toda lendo sem óculos, maquiando sem óculos. Isso acontece porque a miopia pode “compensar” a vista cansada (“presbiopia”), que acomete todas as pessoas a partir dos 40 anos. Lembro que não são todos os graus, mas geralmente os entre 1 e 4 oferecem mais essa vantagem (depende também do astigmatismo). Após a cirurgia, essa “vantagem” da miopia será perdida e, ao se tornar présbita (cerca de 40 anos), ele precisará de óculos de leitura como todos os outros. Além disso, principalmente nos mais jovens, mesmo estando o grau estável há um tempo, há a chance da miopia progredir e a necessidade de óculos para longe voltar (ainda que menor). Nesse caso, é possível um segundo procedimento. Por isso, não tem como garantir 100% que a independência de óculos, mesmo para longe, será para sempre. A independência absoluta de óculos por toda a vida só é possível com procedimentos de troca de lente intraocular (“facorefrativa”), mas isso é assunto pra outro post!

7) Em quanto tempo voltarei a trabalhar e quais os cuidados após o procedimento?

Ao contrário dos procedimentos a laser antigos (alguns ainda indicados em casos individuais), a recuperação com LASIK é muito rápida. Se a qualidade da visão ainda não está 100% logo após o procedimento, é mais pela secura mesmo. No geral, fica-se só em repouso no dia do procedimento mesmo, sem forçar muito. Sair de óculos escuros, devido à sensibilidade à luz no primeiro dia, também é aconselhado. Para a primeira noite, há um protetor ocular para usar. Na primeira semana, de preferência no primeiro mês até, não se deve coçar/esfregar os olhos. Deve-se pingar os colírios prescritos! De preferência, um mês sem sauna e piscina ou coisas que aumentem a chance de trauma ocular, como jogar futebol. Dirigir, só se já se sentir apto após o segundo dia. O banho nas primeiras 24h só se tiver garantia de que não vai entrar água/xampu nos olhos. Nos dias seguintes, apesar da secura ou eventualmente olhos vermelhos, se consegue trabalhar na maioria das funções. Por exemplo, onde trabalho são feitas na sexta e na segunda pessoal já volta a trabalhar – aqui na Alemanha nem se pode dar atestado médico por causa dessa cirurgia, pois é considerada cosmética (no Brasil é diferente).

8) Quando custa um procedimento desses?

Em relação ao FEMTO-Lasik: perguntei para minha amiga (Dra. Fernanda Vieira) que trabalha com isso em BH e ela disse que lá custa cerca de 4 mil reais os dois olhos. No Brasil, em certos casos o seguro cobre o LASIK (mas não o FEMTO-Lasik) – por exemplo, miopia acima de 5 graus. Aqui no sul da Alemanha o procedimento custa entre 3000 e 4000 euros os dois olhos (com Femto-Lasik guiado por Wavefront) e o seguro obrigatório (“Krankenkasse”) não cobre em nenhum caso, os particulares no máximo só parcialmente e dependendo do caso – os seguros deverão ser individualmente consultados.

9) Por que meu oftalmolgista usa óculos?

oculosGuilty!!

Clássica pergunta, hahaha! Alguns motivos são possíveis. Pode ser que ele seja míope e viva de boa com óculos e adora o fato de continuar lendo sem precisar de óculos e você não tem na-da a ver com isso, (#deixaopovoempaz) kkk! Pode ser que ele esteja com óculos só para poder ler, já que ele já sofre “de vista cansada” e laser não corrige a “vista cansada” (presbiopia). Pode ser que ele não esteja a fim de cirurgia e/ou que ele MORRA de medo. Sim! Os riscos são mínimos, mas quando se conhece bem o olho você fica “trancado” mesmo com as possibilidades. Se for a Ana é só porque ela tá meio sem maquiagem ou extra-olheiruda aquele dia e quer disfarçar a olheira! 🙂

10) Ana, você indicaria no meu caso?

Coloquei esse ítem para falar que eu não vou responder esse tipo de pergunta aqui nos comentários. As mais gerais, com todo o prazer. Mas para o SEU caso, só você com o seu oftalmologista mesmo para ter a resposta. O que posso falar genericamente é que, no geral, eu recomendo exaurir as outras possibilidades conservadoras antes de se submeter à cirurgia: já tentou lente de contato? Já tentou lente de contato com um SUPER especialista em lente de contato? Pode ser que você fique super satisfeito assim. Devo ser sincera – se perguntarem, a maioria absoluta-e-esmagadora dos pacientes que chegam pro controle pós- LASIK de 3 meses estão radiantes de alegria. É o que ocorre quando a indicação é correta e o pré-operatório é bem feito, inclusive com cerca de UMA hora de esclarecimentos. Mas a verdadeira pesquisa de satisfação seria aquela feita no fim da vida mesmo, tendo em vista as questões que pontuei antes. Quem sou eu, que mal precisei de óculos na vida, para julgar alguém com miopia de -5 que viu mal a vida toda, né? Mas, por favor, só não se decidam por isso só por modinha, porque sua blogueira favorita fez um post falando que é MARA! BOM SENSO sempre, e tirar todas as suas dúvidas com seu oftalmologista é importantíssimo – assim ficará satisfeito com sua decisão.

Os meus textos da área da saúde são voltados para o público leigo e não têm a intenção de formar colegas oftalmologistas. Por favor, não usem meus textos em outros sites sem a minha autorização, obrigada!

Beijos, e pra quem for fazer todas as boas energias do mundo!

26
outubro
2015

Latisse – o teste interrompido

Postado por Ana em Olhos

Resolvi escrever esse post por causa de alguns e-mails/comentários que recebo perguntando o que acho do Latisse. Para quem não conhece, Latisse é uma substância chamada Bimatoprosta que sempre foi usada no tratamento do glaucoma. Daí, como um dos efeitos colaterais é o crescimento de cílios, logo começou a ser usado pra esse fim. A diferença é que o Latisse vem com pincelzinho para aplicar, mas o potinho é o mesmo colírio, só muda o nome. Eu recebi há uns 3 anos uma amostra no hospital que trabalhava em BH e na época comecei a testar e fotografar, pra postar aqui no blog. A cada semana eu media/fotografava os cílios. Eles estavam crescendo cerca de 1mm por semana. Na verdade, nem tinha dúvida de que funcionava para alongar os cílios. E para constatar isso eu nem precisaria fazer meu teste – basta ver os usuários crônicos de Bimatoprosta com aqueles cílios enormes. Na época, contudo, abandonei o teste por três motivose acabei não fazendo o post. Aliás, todas as fotos são antigas, o que explica o esmalte azul. hehehe

latisse1

latisse2

latisse3

O primeiro motivo é que, vocês sabem, minhas olheiras pigmentam terrivelmente. E pigmentação de pele é um efeito possível extra do Latisse. E como você aplica antes de dormir e daí fecha os olhos, é claro que fica líquido tocando as suas olheiras. Então, após umas 3 semanas eu estava virando um guaxinim e isso foi o motivo número um para que eu parasse com os testes.

O motivo #2 é que minha pele reagiu também nas pálpebras – a linha onde eu passava o Latisse engrossou e ficou escura – dava até um aspecto de delineado. O motivo #3 foi uma infeliz coincidência – naquela época, resolvi testar um produto para olheiras que me deu um edema alérgico horroroso (contei aqui). E tive que parar com o Latisse porque a Bimatoprosta é um pró-inflamatório (é análogo de prostaglandinas). Portanto, se você tem qualquer inflamação nos olhos ela tem o potencial de potencializá-la. Não é à toa que suspendemos/trocamos esse medicamento quando um paciente vai ser operado de catarata, por exemplo. Por isso, suspendi imediatamente e nunca mais retomei os testes porque, para mim, o benefício não estava valendo a pena.

latisseabandonado

Tendo dito isso, gostaria de comentar um fato extra sobre o uso de Latisse: não adianta falar que é “só para os cílios”. Isso é renegar a ciência: a água tem uma propriedade que aprendemos na escola, chamada “adesão e coesão“. Não adianta, produtos líquidos sempre irão ir um pouco “adiante”. Nas proporções milimétricas do olho, isso significa que: se você usa Latisse, você deve estar ciente que sim, ele vai entrar no seu olho e tocar algumas partes da pele. O pincel, para o tamanho do olho, é enorme – se você passa mais perto do comprimento dos cílios, ele transfere mais pro olho. Se você, como eu, é mais medrosa e passa mais perto da base (como é mais indicado) ele transfere mais para a pele.

Conclusão: Ana, devo usar Latisse?

Claro que alonga os cílios, isso é fato. Se eu recomendo? Quem sou eu pra julgar sem conhecer suas prioridades e/ou examinar seus olhos antes, né? Depende o que vem em primeiro lugar para você, depende do custo/benefício. Se você tiver uma blefarite (inflamação crônica das pálpebras) , por exemplo, eu já não recomendaria. Se você tem pânico de suas olheiras aumentarem ou de seu olho azul escurecer em uns pontos (raro, mas pode ocorrer) também não recomendaria. Na verdade, minha única recomendação é ir no oftalmologista primeiro e ver se ele contra-indica no seu caso (algumas inflamações só são visíveis com a lâmpada de fenda, por isso minha recomendação de ir ao oftalmo). Resumo: Façam o que vocês quiserem e sejam felizes!

Beijos!

31
maio
2015

Blephaclean: limpeza das pálpebras pra quem tem preguiça

Postado por Ana em Olhos

Eu levo a higiene das pálpebras MUITO a sério. É impressionante o efeito destruidor a longo prazo de uma blefarite (inflamação das pálpebras) não tratada. Se você usa maquiagem diariamente nos olhos, tem coceira constante nas pálpebras/olhos, bonitinhos aqui e acolá ou simplesmente sensação de olhos secos: consulte seu oftalmologista, pois você pode ser candidata a ter que fazer o cuidado diário com as pálpebras. Aqui no blog já falei sobre outras opções: xampu de bebê, Blephagel e Frex Clean. Se usados corretamente todos são equivalentes, mas tinha uma preferência pelo Blephagel, por achá-lo mais levinho. O problema é o preço mesmo, custa cerca de 100 reais o tubinho na Araújo.

blephaclean

Agora tenho outro favorito, também da Thea: o Blephaclean, que já são compressas prontinhas pro uso. Só passar, nem precisa de água. Ando muito preguiçosa atualmente e quero gastar o menor tempo possível nos cuidados antes de dormir. Lavar o rosto, cuidar das pálpebras, passar os produtos anti-idade, fio dental, escovar os dentes … é osso fazer isso tudo quando a gente já está com aquele soninho bom – porque no fim do processo já estou acesa que nem vagalume! Temos recebido amostras do Blephaclean e por isso o conheci – sempre que recebo amostra de alguma coisa não-medicamento eu levo uma pra casa para testar em mim mesma antes de dar pros pacientes. Putz, que maravilha, viu? Só pegar a compressinha e passar! O preço novamente é o limitante, custa em média 8 euros a embalagem com 20 compresas (umas 25 dilmas) . Uma compressa dá pros dois olhos, então dura 20 dias só. Não sei se chegou no Brasil, pela pesquisa em português que fiz no Google só vi em farmácias portuguesas. De qualquer forma, anotem o nome porque não deve demorar a chegar já que a Thea está por aí marcando território. Se alguém já viu no Brasil, me corrija nos comentários.

Beijos obviamente sem JABÁ!

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