12
abril
2016

24 coisas em 24 meses de Alemanha

Postado por Ana em Alemanha

Hoje estou completando dois anos de mudança “oficial” para a terra da salsicha! É inevitável pensar no que gosto, no que não gosto, nas semelhanças e diferenças. No geral, eu gosto muito de morar aqui e me acostumei bastante com o modo de vida. Já disse que fui assimilando a cultura alguns anos antes de vir morar aqui, então não tive grandes choques. Claro que, vez ou outra, ainda estranho alguma coisa. Tem coisas que não entram na minha cabeça, tem outras que não sei mais viver sem. Faz parte! Estamos carecas de saber que toda generalização é burra, pois as pessoas são diferentes e produto não só da cultura da sociedade em que se inserem mas também da genética, criação, vivências pessoais, estudos. Mas é óbvio que certa sociedade carrega em si uma “tendência”. Por exemplo, eu sou super pontual, “na minha”, não-expansiva. Nem por isso vou falar que é mentira que o povo brasileiro é no geral aberto, expansivo e atrasado. Ou que é mentira que o alemão é mais “distante” que o brasileiro, só porque o marido e sua família não são. Vai da experiência de cada um também. Já que expliquei, não vou ficar repetindo as frases “no geral”/ “geralmente” abaixo, fica subentendido! 🙂 Dito isso, seguem algumas impressões nesses últimos dois anos e “coisas que aprendi” aqui:

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Coisas que aprendi aqui! As minhas impressões pessoais e individuais (redundância proposital):

1) A evitar passar dias de sol em casa e dar todo o valor à primavera e ao verão.
2) Que o motorista alemão é muito generoso/organizado e que eu era – acreditem – super agressiva no trânsito.
3) Que os trens alemães atrasam sim e com uma frequência assustadora na minha opinião. Essa eu REALMENTE não imaginava até quebrar a cara umas 20 vezes.

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4) Que os alemães não são nada espontâneos e são péssimos em improviso.
5) Que os alemães são muito educados na arte de cumprimentar e agradecer, ainda que o estejam fazendo por obrigação
6) Que eu amo os supermercados aqui e que, se comparados ao Brasil, são bem mais em conta.
7) Que eu não sinto a menor falta de carne vermelha, ainda bem, porque pode sair bem caro.

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8) Que o trabalho aqui é mais intenso que no Brasil. Se você está sendo pago pra trabalhar de 8 às 17, acredite, você vai dar todo seu suor de 8 as 17! Seja você pedreiro, faxineira, professor, médico, lojista…
9) Que eles são meio resignados, o que fomenta a ~terrível~ mania do “se vira”. A rua acaba de ser bloqueada pra carros. A garagem do seu prédio foi bloqueada, volte amanhã. O trem não seguirá ao destino final hoje. Se virem, galehre!
10) Que alemães são completamente alucinados com natureza e fazer andanças pela mesma é das maiores manias nacionais – principalmente se o tempo estiver bom.
11) Que o povo alemão é essencialmente individualista (não confundir com egoísta). Cada um com suas coisas.
12) Que eles não costumam oferecer as coisas só por educação, mas se oferecem, pode aceitar.

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13) Que eles não relutam em repassar críticas. Não se espera que você leve pro lado pessoal e fique “sentido”. Aguentaaaa, coração brazuca!
14) Que são um povo muito tolerante, ou ao menos fingem ser. Não estou me referindo aos extremistas, mas ao alemão comum.
15) Que são muito menos preconceituosos do que a “fama histórica” que têm. Ser gay, negro ou mulher aqui me parece mais fácil do que no Brasil, mesmo eu só me enquadrando na terceira categoria.
16) Que não é (nem de longe) toda estrada que não tem limite de velocidade, e os congestionamentos nas “míticas” Autobahn nem são raros.
17) Que aqui não se costuma lavar carro aos domingos, mas sim sábados. Até porque os lava jatos costumam fechar aos domingos!
18) Que todos se organizam com as compras já no sábado, pois domingo os supermercados fecham.
19) Que aqui os cidadãos são devidamente cadastrados e tudo é muito bem monitorado. Se você não se cadastra, você meio que não existe naquela sociedade e perde todos os direitos.
20) Que aqui não é comum trabalho “informal” sem pagar imposto como no Brasil. Até existe, mas bem menos, e bem mais arriscado. O leão alemão é implacável.
21) Falando em leão: que se paga uma quantidade absurda de impostos, tem até imposto pra ajudar a alemanha oriental.
22) Que qualquer coisa que envolver mão-de-obra humana será absurdamente mais cara que no Brasil.
23) Que alemães são muito menos rede social e internet-maníacos. Sabem os nossos memes brasileiros maravilhosos? Nossas polêmicas?! A guerra de política em redes sociais? Os celulares levantados nos shows, as selfies, as fotos de comida no restaurante? Facebook, instagram, snapchat? Muito menos frequente aqui.
24) Que a animação do público em shows nem se compara à do Brasil. Dependendo do artista, a platéia só canta junto quando convidada pelo mesmo. Sério, eu já vi isso! Boca foi lá no chão hahaha

Quem mora aqui, me diga se teve impressão diferente em algum ítem.

Beijos!

06
abril
2016

Invernite aguda

Postado por Ana em Alemanha, Coisas da Ana

Eu sempre escutava falar que a escuridão e frio do inverno deixavam as pessoas meio pra baixo. Sinceramente, achava que passaria imune. Em 2014 eu fiquei bastante em casa, então acabava tendo muito da luz do dia para mim, quando bem entendesse. Já 2015 foi o primeiro ano que vivi as 4 estações integralmente. Como a primavera/verão vêm primeiro, acho que não dei o valor que mereciam. Claro – passeei bastante, andei de bicicleta, patins, fui à piscina… Mas lembro de, às vezes, ver a luz do sol pela janela, céu azul, e ficar com preguiça de sair. Até certo ponto do ano passado eu realmente não via diferença entre sentar do lado de fora ou de dentro de um restaurante. Achava engraçado a mania dos alemães de TER que se sentar do lado de fora se for possível. Não é à toa que um dos bares mais tradicionais de Freiburg faliu no verão passado. Foi um longo verão e era um bar só com lugares internos – os clientes simplesmente não queriam desperdiçar os dias de sol tomando drinks sob um teto.

invernoazulPior que são fotos sem filtro.

Quando chegou novembro eu vi meu humor mudar. Nem pelo frio, mas pela escuridão. Sair de casa escuro e voltar no escuro! Realmente também estava trabalhando muito e bastante cansada. Mas com certeza a falta de luz teve seu papel. Dezembro chegou com seus distrativos natalinos mas eu estava realmente bem rebugenta. No dia em que eu fui viajar pro natal no Brasil, saindo do trabalho, eu estava tão sem energia que achei genuinamente que não teria forças para dirigir aquela uma hora até chegar em casa. Sensação de exaustão, a um nervo de um ataque de beiras. À medida que, após o solstício, os dias começaram a claramente se alongar, fui percebendo o quanto aquilo me afetava física e mentalmente. Um raio de luz no caminho para o trabalho me deixava abobada de alegria. E, pouco antes da primavera chegar, o resto de luz após voltar para casa também marcava presença.

tulipas

Eu só sei que a primavera chegou e me sinto outra pessoa, completamente revigorada. As férias ajudaram, é verdade. Mas estava com um bom-humor assustador semana passada. Como ouvi em Friends certa vez, parecia um Papai Noel no Prozac. 🙂 Agora saio e volto na claridade e ainda posso sair passeando com o dia claro. Vi as flores pelo caminho, as primeiras cerejeiras florescendo e até quis chorar de emoção.

inverniteflor

Acho que por toda a minha vida nunca dei valor ao clima privilegiado de BH – tive que viver bem as estações para entender. Acho que um dos maiores desafios da minha vida aqui sempre será aprender a dar valor ao inverno – que deve ter lá suas belezas. Não quero ser uma pessoa que deseja que o mês “X” (a.k.a vida) passe rápido e que está sempre à espera da próxima primavera, sabe? Mas por ora, as únicas vantagens que vejo no inverno são que os insetos desaparecem, fico de meias felpudas e dormir fica mais gostoso! 😉

meiasfelpudas

Aprendi também que tenho que prestar mais atenção aos sinais do corpo e me preparar melhor psicologicamente para o próximo inverno. Diz o marido que se eu aprender a esquiar vou ficar feliz com o inverno. Talvez seja então uma resolução para o próximo. Acho que é importante me preparar fisicamente também – mexer o corpo nessa situação é ainda mais importante e me atentarei mais à isso da próxima vez, já que no fim de 2015 estava sedentária. Bom, me preocupo com isso depois, pois agora teremos longos meses floridos pela frente. \o/

Quem aí já sofreu de invernite aguda?

Beijos primaveris

04
abril
2016

Como aprendi alemão

Postado por Ana em Alemanha, Coisas da Ana

Eu tenho impressão que minha história com a língua alemã é bem diferente do que muitos pensam. Bem menos admirável e inspiradora, pois quem me pergunta isso geralmente tem um objetivo e quer aprender logo! 🙂 O ano era 2003 e eu tinha acabado de passar no vestibular. No ano anterior, quis aprender francês, mas por causa dos estudos não tinha como. Minha irmã me copiou e, teimosa que sou, mudei de idéia. Pensei: “vou então aprender uma língua bem diferente do português”. Como sempre gostei de coisas da Rússia, me decidi pelo russo. Na época, procurei escola/professor de russo em BH e não achei! Daí, um dia, vi um ônibus passando com a propaganda do Cultura Alemã em BH. “Hummmm, alemão, por que não?”- fui lá e me matriculei.

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A forma como estudei alemão foi bem diferente de como estudo línguas hoje (tema para outro post). Eu não tinha nenhum objetivo envolvendo a Alemanha. Eu sequer tinha curiosidade de vir para cá (que veio depois graça às lições de comida dos livros). Muito pelo contrário, queria que fosse meio uma “slow food” no aprendizado de línguas. A faculdade era bem puxada nos primeiros dois anos e o sábado de manhã era minha catarse. Eu gostava de levantar e ir pra aula – gostava dos meus colegas, que aliás foram diversos ao longo de todos os anos. Adorava a pausa da manhã pro salgado na lanchonete da esquina. Quando a aula era cancelada por algum motivo eu ficava triste de verdade. Uma coisa tenho que dizer: aula em grupo é a forma mais lenta de aprender línguas, caso seja a única forma de estudo. Quem não sabe disso, fique sabendo. Eu não fazia muito esforço em casa – lembro que fazia meus deveres de casa e repassava o vocabulário das lições (que são percorridas super vagarosamente). Eu nem tinha muito tempo porque tinha que estudar pra faculdade à noite! Uma coisa que realmente sempre gostei de fazer foi procurar algumas músicas na internet. Mas fora isso, zero dedicação extra nos primeiros dois anos. Lembro que, após o primeiro semestre, a professora me falou “Ana, seus colegas vão fazer curso de férias, você não quer fazer?“. Eu respondi “Ah, não, não tenho pressa, nem planos de Alemanha“. Acho que tinham uns 14 níveis lá no Cultura Alemã – eu fiz doze pois “pulei” dois quando fiz meu intercâmbio de um mês em Colônia.

Fluência?

Então é por isso que, quando recebo a pergunta “depois de quanto tempo você ficou fluente em alemão?” acho super difícil de responder. Foi um processo muito vagaroso – e por opção minha – não sofri nada por causa da língua. Achei o alemão básico fácil de aprender. Já o alemão avançado e suas nuances, acho muito difícil. Sei que, 3 anos depois, em Colônia, eu me virava bem em alemão (B1/B2) – mas não com muita facilidade, principalmente para ouvir – que foi uma parte fraquíssima da minha escola. O conceito de fluência é complicado. Para começar, ser fluente não significa não cometer erros. Para mim, significa se virar bem sem apertos. Geralmente, quem insiste muito na palavra “fluente” ainda não sabe muito do aprendizado de línguas. E, para ser sincera, eu me senti realmente confortável com a língua em algum momento de 2015. Foi quando eu soube que, se alguém dirigisse a palavra a mim, eu ia entender. Antes era sempre uma incógnita se eu ia entender a pessoa ou não. Meu “ouvido” foi a última parte a se desenvolver bem.

“Métodos”

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Fora o curso tradicional que mencionei, fiz um mês de curso em 2006 no finado Eurocentres de Colônia. Em 2010, um curso de 2 meses na Volkshochschule em Kiel para preparar pro Testdaf. Em algum momento em 2010 fiz dois meses de aula particular com um professor (péssimo) em BH. E foi essa toda minha experiência com aulas. Os livros no Cultura Alemã eram na época o Themen Neu, que depois virou Themen Aktuell e uma série do EM. Não gostava do livros do EM, mas a gramática de exercícios deles foi a minha favorita. Quando comecei a fazer “esforço extra-aula”, após uns anos, foi lendo livros, vendo TV, comprando gramáticas de exercício, lendo notícias, falando, ouvindo, ou mesmo através de materiais para aprender outras línguas. Em um momento era viciada em comprar livros infantis, bem bobos mesmo (mas em termos de vocabulário nem são os mais fáceis de ler). Já tive época de dar download em tudo quanto é app (tipo buzuu, algo assim). E, atualmente, aprendo muito trabalhando. Realmente houve uma época em que comprava uma quantidade absurda de material e ia fazendo em casa mesmo… a maioria esmagadora atualmente está em BH, por isso não tinha muita coisa pra tirar foto. 🙂 Também já fiz muita coisa do site da Deutsche-Welle(que, aliás, tem um curso magnífico) e em uma época imprimi muita coisa de lá, algumas lições que fazia e ia estudando. Até hoje os sigo no facebook e assino a Newsletter, adoro! Já a DW-TV (canal de TV) que tem no Brasil sempre achei uó e nunca consegui assistir. Também sigo outras páginas no Facebook, como o excelente Quero Aprender Alemão. Em relação aos dicionários: acho que fiquei uns três anos só com mini dicionário Michaelis, depois passei pros Langenscheidt. E já faz muitos anos que uso o site/app dict.cc ou Duden Online ou mesmo Wiktionary. Perdi completamente a paciência com dicionários de papel, he he!

Mudar para a Alemanha faz aprender mais rápido?

Só se você estudar. Engana-se quem pensa que morar na Alemanha garante aprender a língua. Eu mesma achava que isso era uma verdade. Até mesmo após mudar para cá, achei que ia “melhorar de graça”. Pois em 2014 minha evolução foi ínfima. Melhorei mesmo quando comecei a trabalhar. Não é uma língua que se aprende por osmose para nativos do português. Eu consigo imaginar facilmente uma pessoa morando dez anos aqui sem aprender direito, caso não estude. Tenho pacientes de outras nacionalidades que moram aqui há 30 anos (!) e mal falam alemão. Por outro lado, super concordo com o Benny. Se for realmente seu objetivo e você “trabalhar com isso”, você consegue atingir um bom nível em três meses. Mas tem que ficar por conta e se esforçar muito.

É isso, sempre recebo essa pergunta e sei que a resposta é muito menos formosa e mágica do que muitos pensam, mas eis aí como foi! 😉

Beijos

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