26
agosto
2017

Diferenças culturais: filas na Alemanha

Postado por Ana em Alemanha

Olha, nosso país tem seus problemas, mas num aspecto ele é altamente desenvolvido: filas! Claro que sem-educação e espertinhos existem vez ou outra, mas acho que o Brasil está neste aspecto anos-luz de outros países, inclusive da Alemanha. Há sociedades em que fazer fila é culturalmente muito mal aprendido: quem não se lembra que nas Olimpíadas de 2008 o governo da China estava ensinando os cidadãos a respeitarem fila? Hahahaha Pois pasmem: a Alemanha é um país ruinzinho de fila. Assim, não é nada que prejudique o dia-a-dia – o conceito básico obviamente existe, a maioria as respeita: mas são nas nuances que os alemães se comportam diferente de nós. Querem exemplos?

O terror das filas laterais

Existem algumas lojas em que tem tipo um caixa no balcão sem delimitação nenhuma clara de onde a fila começa, se é fila única, separada, etc. Daí começa a chegar gente de todos os lados, alemães espertinhos sem fim. Ou mesmo em locais onde as filas são mais bagunçadas por natureza: tipo Mc Donald’s, Burger King .. é muito comum alguém tentar passar na frente. A Alemanha é lotaaaaada de fura-filas!

Não há caixa preferencial

Se existe, é exceção! A regra é não ter caixa preferencial!. Isso eu só fui entender no Natal de 2014, quando fui aos Correios e a fila dava volta no quarteirão. Observei bem e 95% da fila tinha a cabeça branquinha e entendi então que fila preferencial não fazia sentido, né? É também comum ver pessoas com neném de colo, grávidas e idosos enfrentando a fila normalmente sem ninguém dar preferência. Eles não vêm isso como desaforo dos demais e os demais não percebem nada de anormal nisso. Confesso que isso me provoca uma coceira interna, maaaaaas atualmente eu faço igual eles. Uma vez em 2010, em Kiel, dei o lugar ao homem com um neném de colo e tipo ele não entendeu nada e eu tive que explicar o porquê e pude ver claramente que ele simplesmente achou aquilo mega esquisito. Atualmente só dou preferência se eu vir que a pessoa está em apuros mesmo e irá gostar do meu gesto.

Só um ítem

É muito comum alguém que só está com um ítem (ou dois) pedir para passar na sua frente no caixa. Eu achava a maior cara-de-pau, mas nunca neguei. Por outro lado é bem comum te oferecerem para passar na frente se você também só estiver com uma coisa. Eu não costumo aceitar a oferta não, mas meus amigos alemães sempre aceitam – lembre-se: se algo aqui é oferecido, você pode aceitar!

A correria do caixa recém-aberto

Essa para mim era a mais absurda de todas. Eu ficava com o queixo NO CHÃO! Se tem só um caixa aberto com uma fila enorme e o do lado abre, o que COSTUMA acontecer no Brasil? As pessoas, pelo menos as razoáveis, tentam se distribuir mais ou menos na ordem em que estavam, rumo ao caixa novo. Pois aqui o que sempre fez meu queixo cair no chão é que quando um caixa novo abre é cada um por si, quem chegar primeiro leva, hahahahhahaha! Sério, eu tive por muito tempo uma resistência enorme. Atualmente estou no meio do caminho: eu meio que dou uma leve “vantagem” para quem está na minha frente, mas se ele bobear já vou em disparada pro caixa novo.

Os separadores de compras

Sabem aqueles separadores em formato de toblerone que têm nos caixas para separar as compras dos clientes?

No Brasil é meio facultativo, pois nossa sociedade contextual super é capaz de entender que se há uma distância de 50 cm entre blocos de compras, elas pertencerão ao próximo cliente. Sendo a Alemanha uma sociedade contratual, é de se esperar que isso não funcione. Aqui as compras devem ser separadas com o tal toblerone e há inclusive uma discussão : por qual dos dois você é responsável? Eu acho que pelo depois das nossas compras e vocês? 🙂 Quase uma questão filosófica. Atualmente mudei de time e quando um freguês não coloca nenhum toblerone eu fico genuinamente o achando super sem educação, nesse quesito alemanizei mesmo! Mas lembro que recém-chegada eu gostava de testar essa “neurose” dos alemães e não colocava separador nenhum, para logo ver o alemão se coçando todo e tomando a iniciativa. Eu achava engraçado mesmo fazer esse teste. Sim, I was that bad! Outra coisa interessante é que se você colocar suas compras na esteira antes do da frente terminar, por mais que você ache que vai sobrar espaço, você tem chance de uns 12,45% de ser chamado a atenção. Meu marido por exemplo acha ruim e fala na lata pro outro: DEIXA EU TERMINAR, NÉ COMPADRE?! Eu, aliás, não canso de de surpreender como uma pessoa tão fofa e educada como ele fala tanta coisa na lata. A facilidade com quem ele diz NÃO! Típico de alemães isso… Um dia aprendo, hahaha!

Todas essas reflexões vieram nas minhas comprinhas de ontem – e mais ainda, estava reparando como mudei nesse aspecto. O que eu realmente não quero me tornar é uma fura-fila! Mas com o resto tenho até que tomar cuidado para não esquecer das raízes e não pagar de grosseirona nos meus retornos ao Brasil!

Beijos!

12
agosto
2017

Duas receitas deliciosas com cogumelos Pfifferlinge

Postado por Ana em Alemanha, Ana de Casa

E pensar que há uns 10 anos eu detestava cogumelos! Atualmente prefiro fungos a carne, acreditam? Estou sempre fazendo receitas com os mais variados tipos. Por aqui existe um tipo de cogumelo chamado Pfifferling que só achamos para comprar fresco no alto do verão e assim permanece por alguns meses e depois somem. 🙁 Esses cogumelos são do gênero Cantharellus e no Brasil têm o nome de canário ou rapazinhos. Não sei se é porque eu praticamente não cozinhava no Brasil, mas nunca vi por lá. De qualquer forma, acho que os Shimeji são bons substitutos em terras tupiniquins. Mas aqui, como sou epocazeira de carteirinha, estou aproveitando os frescos do supermercado para fazer minhas receitinhas favoritas com eles. Duas delas já tinha feito ano passado e repeti nesse final de semana e aproveito para compartilhar com quem também quer aproveitar a época de Pfifferlinge! 🙂

Como limpar os Pfifferlinge:

Esses cogumelos devem ser lavados de forma diferente dos de Paris, por exemplo. A melhor forma é limpar individualmente com um pincel de cozinha, um a um, tirando a sujeira. Daí você os joga numa bacia d’água, escorre numa peneira e seca. Daí você corta a parte inferior dos cabinhos fora e eventuais partes amolecidas.

Sopa de creme de milho com Pfifferlinge

 

Essa receita eu modifiquei levemente da revista alemã Brigitte e pode ser bem difícil (para não dizer impossível) reproduzir com exatidão no Brasil, mas dá para substituir ingredientes. Sabe, vejo muitos brasileiros sofrendo com coisas que não se encontram aqui – choram pelo chuchu e mandioquinha derramados – mas eu pessoalmente acho que o contrário é absurdamente maior. Então sempre vejo o lado bom e fico feliz de poder usar ingredientes que não teria a oportunidade de usar por lá. Essa sopinha é a maior comfort food ever!

Ingredientes

– 1 batata grande (aqui use o tipo mehligkochend) – eu usei umas 6 pequenas Frühkartoffeln
– 1 lata grande de milho (285g sem água)
– 750 mL de caldo de legumes (mais concentrado que o normal) – pode ser caseiro ou industrializado. Aqui na Alemanha sempre uso aquele cremosinho da Knorr, o Knorr Bouillon Pur Gemüse – coloco dois potinhos nos 750mL de água quente e misturo.
– 1 colher de sopa de Meerrettich – raiz forte branca
– 50g de Schlagsahne – que é parecido com creme de leite fresco
– pimenta moída na hora e sal a gosto
– 100g de cogumelos Pfifferlinge
– duas cebolinhas dessas tipo chalota (Schalotte)
– 1 colher de sopa de manteiga
– um pouquinho de agrião-de-jardim (Gartenkresse) ou alguma outra erva para finalizar

Ingredientes no Brasil: eu substituiria o Pfifferling por Shimeji. O Meerettisch é típico do norte da Europa e eu substituiria por alguma mostarda fina picante e o Gartenkresse (agrião-de-jardim) por qualquer erva, como salsinha. E usaria creme de leite fresco em vez do Schlagsahne. Se não tiver chalote, usaria uma cebola normal pequena, mas deixaria ela reduzir mais tempo para não roubar o gosto.

Modo de preparo:

Prepare o molho de legumes. Eu dissolvo dois Bouilllons Pur da Knorr em 750 mL de água. Descasque as batatinhas (ou a batatona) e corte em pedaços menores. Escoa o milho na peneira e daí você adiciona milho e batata ao caldo de legumes ao fogo médio. Deixe cozinhar uns 10 minutos e teste se a batata está macia com um garfo. Daí pegue um mixer (uso o de mão mesmo, direto na panela) e com cuidado para não se queimar, faça da mistura um purê. Daí você passa essa mistura numa peneira, para ficar um creme liso mesmo. Eu particulamente gosto de coisa rústica, mas nesse receita concordo que essa etapa deixa tudo mais phyno! Adiciona o Meerrettich (raiz branca forte) e os 50g de Schlagsahne (parece com creme de leite fresco), ajusta o sal e a pimenta. É importante não deixar ferver mais depois de adicionar o Meerretich, pra não perder o seu clássico ardidinho! Em outra panela, você derrete uma colher de sopa de manteiga joga os Pfifferlinge com a cebola chalota picada em pedacinhos. Os cogumelos menores eu deixo inteiros mesmo, os grandões corto em pedaços menores. Uns 5 minutos depois, ajusta sal e pimenta. Você então monta o prato com a sopinha, joga um pouco dos cogumelos em cima e finaliza com as ervas.

Medalhão de filet de porco com molho de Pfifferlinge e Spätzle

 

Eu não sou fresca com carne – uso a moída e frango do Aldi, sabe? Mas em se tratando de medalhão de filet de porco, acho que os do açougue fazem TODA a diferença no sabor. Se a qualidade for mais ou menos, vale a pena fazer uma marinada como essa do Panelaterapia. Mas sendo a carne ótima, apenas sal e pimenta já deixam o gosto incrível! A receita do molho também é modificada da Revista Brigitte! Já notaram que amo as receitas deles, né? 🙂

Ingredientes

– Cerca de 500g de uma peça filet de porco (Aqui no açougue ou você pede Schweinelendchen)
– Cerca de 500g de Pfifferlinge ou outros cogumelos. Desta última vez eu estava com cogumelos de Paris que iam perder então misturei! Piquei uns 80% e deixei uns Pfifferlinge inteiros separados.
– Uma colher de sopa de pimenta verde (Grüner Pfeffer)
– Um shot de conhaque ou vinho branco
– Uma colher de sopa de molho inglês
– Muita salsinha picadinha (aqui uso 30g, um pacotinho do Rewe)
– 50 mL de Schlagsahne (tipo creme de leite fresco)
– Uns 400g de Spätzle ou outra massa para acompanhar

Exemplo de pimenta verde

Ingredientes no Brasil: Substituiria os Spätzle por uma massa qualquer, usaria uma mistura de cogumelos frescos quaisquer. Com cogumelos de Paris também fica um molho delicioso. E, mais uma vez, substituiria o Schlagsahne por creme de leite fresco.

Modo de Preparo:

O medalhão:

Você corta o filet de porco em medalhões de uns 2-3 cm de espessura ou como preferir. Muito se debate sobre colocar sal/pimenta antes ou depois, sendo que muitos experts falam para colocar sal só depois porque deixa a carne dura. Mas depois que li isso aqui me convenci do contrário e faço assim: o sal coloco antes, pois não vai deixar a carne dura desde que não passe de 15 minutos. Já a pimenta sim coloco depois de grelhado. Então resumindo: tempero generosamente com sal rosa, daí levo à frigideira quente com um pouco de azeite (ou qualquer óleo que preferir) e deixo uns 3 minutos de cada lado até dourar. Coloco em cada lado a pimenta moída na hora e envolvo cada pedaço em papel aluminio e levo ao forno não muito quente (uns 150 graus) e lá deixo uns 10 minutos, porque ao contrário de muitos europeus eu não gosto de carne vermelha dentro. 🙂

O molho

O grande super star desse molho é a pimenta verde, acho que deixa o sabor super sofisticado! São grãozinhos verdes que vêm numa marinadinha. Dei um Google e vi que tem no Brasil também, tipo essa. Na panela onde está o caldinho da carne, você pode colocar um pouquinho de manteiga e adicionar os cogumelos picadinhos. Junte uma colher de sopa de pimenta verde e deixe reduzir poucos minutos. Depois adicione os cogumelos inteiros que sobraram, deixe murcharem um pouco, dê um sustinho com conhaque! Daí adicione a salsinha picada e depois o Schlagsahne (“creme de leite”) com um pouquinho de molho inglês.

Sirvo com Spätzle, que é uma massa típica aqui do sul da Alemanha – que eu amo! Só seguir as instruções da embalagem!

Curiosidade: Pfifferlinge & Chernobyl – alguns cuidados a tomar

Uma outra observação é que esse tipo de cogumelo é dos que mais absorve coisas do solo. Daí é importante ver a procedência e forma de cultivo. Eu evito comprar, por exemplo, da Ucrânia e afins e até mesmo da Baviera por causa do acidente de Chernobyl. Foi há mais de 30 anos, mas ele ainda vai deixar o o solo contaminado com material radioativo por várias décadas. Por causa da chuva, os elementos radioativos se espalharam por uma área enorme, inclusive pela Alemanha. Em relação a esse acidente, nós que moramos por essas bandas temos que ter cuidado ainda com outros alimentos, como cenouras. Para vocês terem idéia, ano passado testaram a carne de javalis de uma cidade da Baviera e encontraram uma quantidade absurda de Becqueréis neles, afinal são bichos que se alimentam de coisas do solo. Nem sou eco-freak, mas eu acho isso longe de ser uma bobagem. Não acho que precisa evitar totalmente cogumelos dessas regiões, mas talvez se informar mais onde foram produzidos. Por exemplo, muitos são produzidos em estufas especiais, então não há problema.

Locais com solo contaminado por causa de Chernobyl

Beijos da fã de todos os tipos de cogumelos não-alucinógenos e não-venenosos!

28
julho
2017

Minha cidadania alemã (por casamento)

Postado por Ana em Alemanha, Coisas da Ana

Tenho umas “boas novas” pra contar: agora também sou cidadã alemã! Após burocracias, papeladas, acusações de fraude e tudo mais, o passaporte tá na mão! Contei tudo no vídeo abaixo, mas pra quem “é de texto”, tem texto também! 🙂 Ah, abaixo estou misturando conceitos de nacionalidade e cidadania de forma bem grosseira – sei que juridicamente são conceitos diferentes mas por favor cut me some slack 🙂

Motivos para a nacionalidade

Na verdade eu nem precisaria de muitos motivos, para mim “por que não?” já seria o suficiente. Em qualquer outro país que eu estivesse morando ia querer sim a nacionalidade, claro. Mas motivos práticos não faltaram ! Isso é um grande facilitador da minha vida por aqui. O motivo número um é que isso significa que possivelmente nunca mais vou ter que ir no setor de estrangeiros da cidade. Parece uma bobagem, mas aquele lugar virou um inferninho após a onda de imigração: para coisas bobas como pegar meu titulo de permanência eu já cheguei a ficar 4 horas em pé. E o pior é que os horários são totalmente incompatíveis com quem trabalha. Eu já tive que tirar vários horários de férias para resolver besteiras, e ninguém merece , né?

Além disso agora tenho o passaporte alemão o que me permite ignorar a fila pro “resto do mundo” nos aeroportos aqui e passar direto na catraca da EU. E ficar na mesma fila com meu marido, sogros. EDIT: me disseram que dá para fazer isso com o cartão de permanência, procede? E ter que responder menos perguntas na Inglaterra (apesar de não pertencer mais à EU. Meu marido sempre passou quase direto e eu tinha que ficar respondendo mil perguntas). E poder entrar nos EUA só com o ESTA. Aliás, a primeira coisa que fiz quando peguei meu passaporte foi desmarcar minha entrevista pro visto americano em Frankfurt. Olha que prático! Dizem que em termos diplomáticos o passaporte alemão é o melhor do mundo. Teve até um ranking ano passado:

Além da economia de não ter que ficar renovando visto, da independência de não precisar ir com meu marido para essas coisas. Eu DETESTO depender de marido para qualquer coisa e até hoje para qualquer coisa relativa à minha permanência ele tinha que ir junto. E sensação de liberdade pro caso de eu precisar ou querer ou pirar e ir pro Brasil e me arrepender depois eu posso voltar quando bem entender: independente de casamento, de emprego, de nada. Não que eu vá pirar, mas como disse, aprecio a liberdade. Sempre vou poder ficar por aqui se assim o quiser. E claro: também vêm os direitos e deveres como ajudas de governo (que eu obviamente nunca quero receber), votar se me der na telha, etc!

Resolvi tirar a nacionalidade assim que preenchi os pré-requisitos de tempo, por motivo de: MEDO das regras mudarem. Seja de aumentarem o tempo necessário de residência, seja mudarem as regras da dupla cidadania. Esse tipo de coisa eu sempre faço o mais rápido possível pra não me chutar depois!

Mas eu não tinha cidadania sendo casada com alemão, como assim?

Muita gente confunde duas coisas totalmente diferentes: uma é o visto e a permissão de residência. Outra coisa é você ter a nacionalidade de um país, e com ela a cidadania: ter passaporte, poder votar, etc. Quando você casa com alguém daqui você logicamente vai ter direito ao visto por casamento – mas nem isso é automático. Tem que levar documentos, ir com o marido e renovar de tempos em tempos. Para a cidadania existem vários pré-requisitos, inclusive de tempo de moradia – acho que em país nenhum você ganha cidadania por casamento. Tipo, se meu marido quiser ser brasileiro agora ele não consegue, porque teria por exemplo que morar no Brasil. Ao contrário do Brasil, aliás, a Alemanha usa o critério de ius sanguinis para a nacionalidade, ou seja: NASCER aqui não garante a nacionalidade. Por exemplo, filhos de casal turco que nasceram e cresceram aqui só são alemães se entrarem com pedido E se abdicarem da nacionalidade turca!

Dupla nacionalidade

Essa é uma grande dúvida porque várias nacionalidades devem optar entre a alemã e a própria. Esta é inclusive uma regra standard na hora de tirar a cidadania alemã: abdicar da sua. Mas claro, há exceções: tipo países da UE, Suíça e… Brasil! A nacionalidade brasileira nunca é automaticamente perdida e você só perde se entrar com um processo de livre e espontânea vontade para perdê-la! Fiquei com medo de não saberem disso mas a mulher estava bem informada e logo disse que eu teria dupla nacionalidade e foi me explicando as implicações disso. Por exemplo, se eu tiver um pepino no Brasil o consulado alemão só consegue me ajudar parcialmente. A gente faz uma carinha neutra como se tivesse #chateada mas no fundo tá pulando de alegria. Porque NAONDE que eu ia desistir da minha nacionalidade brazuca?? Impensável ser estrangeira no meu próprio país e isso eu não faria nunca. Se deixar de ser brasileira fosse pré-requisito eu ia passar a vida inteira nessa chatice de setor de estrangeiros sem nem titubear. EDIT: no formulário, quando pergunta se você está pronta para abdicar da sua nacionalidade, você marca NÃO!

Pré- requisitos

De forma bem resumida: se você mora na Alemanha você tem direito a entrar com o pedido da cidadania após 8 anos. Há exceções: quem frequentou curso de integração ou traz vantagens ao país (super integrado) consegue com 7 anos. Quem é casado com cidadão alemão precisa morar há 3 anos aqui e estar casado há 2! Além disso você precisa de um certificado de língua mínimo B1, de preencher um formulário gigantesco e de levar um currículo tabelar (coloquei o modelo do meu aqui), foto e vários outros documentos dessa lista (atenção: consultar a própria cidade, pode variar!) em original e cópia. A certidão de nascimento e casamento do Brasil têm que ser traduzidas juramentadas. Isso fiz com um tradutor da minha cidade (aqui) para ir mais rápido. Dentre os documentos: contrato de trabalho do marido e meu, contracheque dos últimos 3 meses meu e do marido, passaporte do marido, contrato de aluguel, prova de contribuição ao “INSS” daqui, etc etc! Você também leva uns arquivos impressos para assinar lá na hora, basicamente dizendo que você não é terrorista, he he he. E, claro, paga 255 euros – isso não inclui os custos que terá depois com passaporte e ID.

O que eu notei nesse processo é que o importante para Alemanha é que
1) Você não seja terrorista
2) Você não seja criminoso: se já foi condenado por crime, tá fora
3) As chances de você dar prejuízo financeiro ao país seja baixa. Eles não querem te financiar!


O processo

Por isso é perguntado no formulário se você já recebeu ajuda do governo e por isso pedem tanta confirmação de renda e trabalho. Sei que tem gente que consegue a cidadania apenas mostrando que o marido pode sustentar. Mas eu nem tenho idéia como seria na hora que você vai entregando a papelada e não tem confirmação de renda etc. Tá tudo na lista lá, e não tem escrito “opcional”. Jeito deve ter mas acho que atrasa bastante o processo.

Daí logo antes de completar o tempo já marquei minha provinha na Volkshochschule. Sim, tem uma provinha de 33 questões sobre política, história, etc, se chama Einbürgerungstest. Mas tem vários apps com as 330 questões possíveis para você estudar e ainda pode errar um bocado – maior mamata, não precisa ter medo da prova. Daí o resultado chega por correios 3 semanas depois. Daí assim que recebi o resultado da prova eu liguei para marcar um horário para entregar a papelada. O problema é que por causa do meu trabalho tudo tem que ser com mega antecedência (desmarcar pacientes!) e eles também não têm muitos horários à disposição. Então esperei quase 3 meses para ter meu horário pra levar tudo. No dia de levar os documentos lá fui eu com 1kg de papel, tudo neuroticamente conferido e na ordem da Check-List, em plásticos individuais. Apesar disso era tanta coisa que estava meio tensa de ter esquecido de algo, afinal eu não teria outro dia para voltar. Fui com hora marcada e daí a mulher começou a conferir o big formulário linha por linha. Daí de repente ela vira para mim e diz “aqui, você marcou que nunca respondeu a um processo mas em 2014 você estava em Lörrach e foi acusada de blablabla fraude na Alfandega blablabla“. Gente eu queria uma câmera para ver minha cara nessa hora. Sabe cara de avestruz olhando pro lado?

                                                                   Eu sendo acusada de fraude

Tipo Didi Mocó: ACUMA????. E eu disse : “an? Eu nunca estive em Lörrach, como assim?” E na minha cabeça passando as coisas mais absurdas. Insisti que não sabia de nada e perguntei se ela poderia checar de novo. Daí ela me mostrou a tela do computador e lá estava Ana Christina não sei de que, nascida na década de 70, em Portugal. E eu disse : “olha, não sou eu, é uma portuguesa!”. E ela: “ah, tá“. Nem pediu desculpa, me acusou de fraude (Betrug, palavra que sangra meus ouvidos) assim na lata e ficou por isso mesmo. E pode colocar isso na lista de vantagens de não ser mais estrangeira no papel – um alemão nunca que ia aceitar isso. Mas eu fiquei quietinha, né, porque senão bye bye cidadania. Mas daqui para frente jamais vou aceitar algo assim sem ao menos dar uma puxada de orelha de volta. Então segui mostrando os documentos e entregando as cópias, um a um, e ela até disse que eu “estava incrivelmente bem preparada”. É, EU ESTOU né, você não, Creuza. 🙂 No fim disse que da parte deles o processo demorava uns 3 meses mas que tinham que checar com vários setores , então poderia demorar mais. Mas ok, entreguei e esqueci.

Chegou rápido

Qual não foi minha surpresa quando duas semanas e meia depois chego em casa e tem uma “cartinha suspeita” da cidade? Meu marido estava me aguardando para abrir, até meio preocupado porque quando é tão rapido é porque deu algum biziu. Daí abrimos e era uma cartinha falando que estavam felizes em informar que meu pedido tinha sido aceito e que DESDE que as condições informadas por mim não tenham se alterado, principalmente as ECONÔMICAS ($$$$$), eu teria que ir lá no dia X no horário X com meu marido para pegar o documento de cidadania. Daí foi um Deus-nos-Acuda, como assim uma semana de antecedência em horário UTIL? E logo na quarta quando trabalho a uma hora da minha cidade. Consegui desmarcar 2 horas de pacientes e saí em disparada para o horário (último, I hope) nesse setor de estrangeiros. Encontrei com meu marido, levei uns documentos assinados que recebi junto com a cartinha e lá conferi o documento, a mulher carimbou. Tive que repetir a seguinte frase em voz alta:

Ich erkläre feierlich, dass ich das Grundgesetz und die Gesetze der Bundesrepublik Deutschland achten und alles unterlassen werde, was ihr schaden könnte”

 

Em tradução livre: “prometo não ferrar com a Alemanha”. kkkk Eu, perfeccionista como sou, já tinha visto na internet que leria isso e treinei a frase para pronunciá-la o mais lindamente possível. 🙂 #ANA-CRISTINA-A-LOUCA

Daí ela me disse que a partir daquele momento eu era cidadã alemã e me deu parabéns. Nessa hora me deu um nó na garganta. Não pelos motivos pelos quais eu queria essa nacionalidade. Não por felicidade nem por tristeza, mas um nó na garganta de constatação mesmo. Eu não me canso de admirar o quanto a vida é essa coisa bela, imprevisivel e até irônica. Eu jamais poderia imaginar que as coisas tomariam esse rumo quando sentei lá na minha primeira aula de alemão em 2003, interessada unicamente em aprender uma nova língua. É bom, mas é estranho.

Não acho que isso possa ser considerado uma “conquista” porque tudo que fiz foi uma provinha boba, xerocar, organizar documentos e preencher pré-requisitos. Mas é mais um milestone por aqui e por ele sou grata!

Beijos da alemãzinha que fala uai

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
Página 2 de 1912345678910