02
abril
2019

Primavera

Postado por Ana em Coisas da Ana, Maternidade

A primavera chegou meio antes da hora por aqui. De princípio não achei bom, pois estava em um “mood” de inverno. Depois, vendo aqueles dias lindos, me animei. As cerejeiras aqui perto floresceram já em março – as mesmas que ano passado deram flores no meio de abril. Em vez de chorar pelo macacão peludinho derramado eu me alegrei por ver que era a melhor época para receber um bebê. A última semana de gravidez foi muito boa – meu marido já estava de folga e passeamos muito pela cidade (geralmente após um horário na médica).

Pois enfim minha filhinha chegou! Se chama Lívia e nasceu dia 24/03, bem no aniversário de sua avó materna – o que tornará este dia novamente um dia de festa! Meu trabalho de parto começou já na madrugada do dia 23 de março e eu fui para o hospital na madrugada do dia 24 de março. Por si só já teriam sido horas muito sofridas – em um momento comentei com o meu marido que até então aquilo estava parecendo uma tortura do BOPE . Mal sabia eu que a tortura nem tinha começado. Eu escrevi sim um texto de três páginas com todos os detalhes do meu parto – mas imprimi, dobrei e com ele finalizei meu diário da gravidez. O de papel. É muito longo, muito íntimo, muito profundo.

Como eu contei, acreditem – bem breve- e resumidamente – no instagram, meu parto foi a experiência mais difícil da minha vida. Não quero repetir nem contar detalhes aqui, porque realmente ficou pra trás. Mas para vocês terem idéia – eu quase (quase mesmo) morri. Houve uma complicação raríssima na anestesia.

Quem, como eu, é fã de Gilmore Girls lembra quando a Amy Sherman Palladino deixou a produção da série. Foi um saco porque ela dizia que pensava em terminar o seriado com “três palavras“. E desta forma ficamos sem saber quais eram essas palavras – que por sorte apareceram anos depois no remake da Netflix. Eu era meio assim com o nascimento da Lili – imaginava vários cenários diferentes, ela sendo trazida ao meu colo e eu dizendo as palavras “x”. Será que eu ia cantar, será que eu ia apenas chorar mais que ela, será que eu ficaria em silêncio, será que baixaria em mim uma poetisa? Essas palavras eram um incógnita para mim e eu era muito curiosa para saber quais palavras seriam “as escolhidas” – as trazidas pelo meu instinto e pela emoção do momento. Bom, isso nunca aconteceu, eu nem a vi nascer pois eu estava entubada em anestesia geral.

Num dos nossos primeiros momentos juntas no quarto, tivemos sim nosso primeiro papo cabeça – que foi também instintivo vindo das minhas vísceras – e ok, valeu também! Escrevi depois em seu livro de bebê para que não nos esqueçamos do que foi dito.

Mas ao contrário do que eu supus em um primeiro momento, esse trauma ficou pra trás. Claro que eu lembro – e lembrarei se por um dia eu precisar ficar de novo naquela posição para a peridural. Aliás, até fiquei uns dias depois para receber um blood patch e tratar a dor de cabeça horrível que me deu. Foi horrível, exigiu muita coragem, mas consegui. Não é como um trauma de um sequestro que pode acontecer de novo amanhã, então para mim isso virou um sonho ruim. Mas no geral, sei que tive sorte no azar. Foi uma experiência ruim (péssima) mas ainda assim foi apenas “o meio” – o que me trouxe uma filha mais perfeita do que eu poderia imaginar – e me deixou ainda mais grata por minha vida e por cada momento que passamos juntas. Eu não ligo se por acaso eu passe a não dormir direito (ela por enquanto praticamente só dorme). Não ligo pro trabalho que ela venha a me dar (por enquanto dá pouco). Eu estou em êxtase por poder cuidar dela. Em êxtase simplesmente por estar aqui. Ela me parece o bebê mais lindo e bonzinho do mundo e a amamentação (que eu tanto temia pelas histórias que ouvi) tem sido a melhor parte desse processo. Eu virei um clichê ambulante – nem lembro mais da vida antes dela.

Estamos nos conhecendo, mas estou amando ser mãe. Dizem que o puerpério é como a morte de uma mulher e nascimento de outra. É assim mesmo que me sinto – exceto que não vejo essa morte como uma coisa triste. Com ou sem filha, a Ana antiga teria morrido após aquela experiência de quase-morte. E eu tenho essa mania irremediável de só olhar para frente. E essas tantas flores ao meu redor só me trazem esperança que nosso futuro juntas será sereno e feliz.

Beijos da mais nova mamãe

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